quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A caretice está solta

A caretice está solta, como sempre esteve, lançando sombras, como sempre lançou, sobre as grandes conquistas sociopolíticas da humanidade. Ela sempre atuou assim, como um balde de água fria na liberdade de expressão, como um freio retardando a evolução da humanidade.

A caretice, pra quem não sabe, é o resultado da ação dos caretas, pessoas que vivem agarradas feito carrapato em convencionalismos, fundamentalismos, puritanismos e moralismos bestas que lhes dão aquele ar solene dos túmulos.

O careta vive do passado e no passado, observando, analisando e tirando conclusões sobre o mundo de hoje a partir de épocas, lugares e pessoas que não têm a menor relação com o que está acontecendo aqui e agora. Ainda assim, o careta insiste em intervir no presente com ferramentas que podem até ter funcionado ontem, mas que são ridiculamente retrógradas para o trato das grandes questões humanas de hoje.

Embora apresente-se publicamente como a mais ardorosa guardiã da ordem e dos costumes, o careta não passa de um histérico e delirante adorador de fósseis, fanaticamente ancorado em crenças, valores e comportamentos que considera imutáveis, apesar de totalmente inadequados para o mundo atual.

Ao defender, com tanta intransigência, a continuidade de estruturas caducas e viciadas, a caretice transforma mecanismos de proteção da sociedade – como a justiça, a família, o governo, a escola, a religião e o trabalho – em grandes ameaças para a própria existência da sociedade.

A caretice entende que só existe ordem no conservadorismo, no reacionarismo, no fanatismo e em todas as formas de estagnação e retrocesso patrocinadas pelo patriarcado machista pré-histórico que sobrevive por aí, violentando corpos, corações e mentes com a mesma arrogância e burrice de sempre. Ao mesmo tempo que suspeita de toda mudança como ameaça à ordem vigente, a caretice apoia incondicionalmente o status-quo careta que, embora cada vez mais degradado e defasado no tempo e no espaço, continua proporcionando vantagens e privilégios para os caretas.

Não é à toa que a caretice sempre contou com uma massa enorme de seguidores em todas as épocas e lugares, contra uma meia-dúzia de gatos pingados militando na vanguarda. Isso leva à conclusão de que ninguém é careta por simples escolha e convicção, mas por oportunismo e esperteza, de olho nas vantagens oferecidas pelo “sistema” para quem se mantém atrelado a ele.

Para os caretas, caretice é sinônimo de normalidade: para ser normal, é preciso ser careta. E quanto mais careta, ou seja, mais enquadrada, alienada e submissa ao sistema, mais destacada e reverenciada a pessoa será, dentro do contexto sociopolítico-cultural da sociedade careta em que vive.

E a tranquilidade de ser careta? Não há nenhum risco, não é necessário nenhum esforço extra para alguém ser careta. Basta concordar com as normas de conduta do sistema sempre, defendendo isso-tudo-que-taí com unhas, dentes e até com metralhadoras se preciso for. Basta botar o rabinho entre as pernas, baixar a cabeça e sair sempre de fininho, sem dizer nada, sem contestar nada, sem propor nada e sem defender nada que não seja a permanência incondicional da caretice no seu estado de sempre. Basta receber e assimilar passivamente todas as pressões sociais para manter-se dentro do conformismo e da alienação, a serviço da babaquice, da cretinice e da mesmice de sempre. Evidentemente, em troca de gozar todas as prerrogativas e vantagens concedidas aos caretas...

Ao contrário, dá um trabalhão danado, tem um risco altíssimo e traz muita dor-de-cabeça aderir à vanguarda, descolar-se, tornar-se revolucionária, progressista e libertária. A sociedade coloca todo tipo de resistência, restrição e obstáculo no caminho de quem se propõe a pensar, sentir e fazer de modo diferente daquilo que é amplamente defendido pela caretice.

Até hoje tem sido assim, em qualquer lugar e em qualquer época. Pessoas libertárias são vistas como graves ameaças à ordem vigente, por mais cruel, decadente, injusta, retrógrada, tirânica e irresponsável que seja essa ordem. Pessoas revolucionárias são sempre vistas como rebeldes inconformadas, agitadoras, subversivas e baderneiras. Os comportamentos de vanguarda sempre foram rechaçados, desestimulados, ridicularizados, interditados e combatidos com toda a força do aparato institucional careta. Vanguardistas de todos os naipes e cores são submetidos regularmente a todo tipo de constrangimento e humilhação.

Mesmo que não sejam mais vítimas de terríveis torturas físicas, não sejam mais trancados em sinistras masmorras, nem sadicamente queimados em praça pública, a vanguarda revolucionária ainda é o alvo principal dos ataques da caretice.

Cada vez mais “politicamente correta” (tem coisa mais careta do que essa de “politicamente correto”?), a caretice tem desenvolvido e implantado formas muito mais sutis de exclusão e punição dos seus críticos e detratores. Agora eles são elegantemente “desconvidados” a fazer parte do mundo careta, sem direito nem mesmo a um emprego medíocre, que lhes assegure a renda para o café e o almoço de todo dia. Uma forma poderosamente sutil de punir, excluir e violentar pessoas revolucionárias através de pura e simples “insolvência financeira”.

Entretanto, para os espíritos libertários, a retribuição é a mais alta de todas que o ser humano pode aspirar em sua existência: a liberdade de se auto expressar; o prazer incomparável de ser a pessoa que se é, sem nenhuma máscara ou artifício; a paz de estar em paz com as próprias ideias, desejos e ações.

Essas recompensas nenhum sistema careta jamais poderá oferecer.

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