terça-feira, 23 de agosto de 2016

A verdadeira razão para o ódio e o desprezo da sociedade à parcela transgênera da população

De um modo geral, a ínfima parcela desarmarizada da população transgênera do país sempre esteve mais interessada em estética corporal do que em saúde física e mental, mais inclinada a esmolar, passivamente, coisas vagas e absurdas como “respeito” da população, do que se empenhar na luta pelo resgate dos seus direitos civis. Mais interessada em "fazer sexo" do que viver em segurança.

A parcela de pessoas que se mantêm armarizadas - e que, de longe, constitui a maioria da população transgênera, só faz fingir e fugir: fingir que é o que não é e fugir de assumir ser o que é. Também o preço de assumir é altíssimo: a sociedade cisgênera-heteronormativa não deixa por menos ao punir severamente quem fere o dispositivo binário de gênero. Pequenos exemplos do elenco de maldades reservados aos "transgressores de gênero": perda de família, perda de emprego, perda de lugar na escola, perda de clientes, perda de lugar na sociedade, queda drástica na reputação pessoal e no "status", castigo, escárnio, estigma, medo, repulsa, discriminação e violência física e moral.

Dentro do gueto transgênero, as lideranças e pessoas formadoras de opinião comportam-se invariavelmente da maneira mais conservadora e reacionária possível, ao dirigirem seus ataques a lideranças e pessoas formadoras de opinião da grande parcela de pessoas conservadoras e reacionárias que compõem a sociedade brasileira contemporânea. Não apresentam nenhum argumento bem-fundamentado e robusto em defesa da transgeneridade, mas apenas perdem tempo em refutar baboseiras bíblicas e normas morais completamente ultrapassadas e fora de propósito no mundo de hoje.

Na mídia, como na academia, a questão transgênera continua a ser tratada como uma curiosidade circense dos tempos pós-modernos, uma atração muito especial do grande cabaré da fornicação e da luxúria humana. São raríssimos os estudos e reportagens que escapam do padrão bombástico em que se apresenta e se representa o fenômeno da transgeneridade no país. E o pior é que grande parte da galera trans adora se ver retratada nessas pinceladas sexistas-lascivas, muitas vezes contribuindo, de bom grado, com seus "exemplos de vida", para que a população transgênera continue a ser vista como a banda podre da sociedade: transtornadas mentais, desajustadas, delirantes e devassas, que, sem dúvida alguma, representam ameaça permanente à saúde e ao equilíbrio de “sagradas” (e hipócritas) instituições sociais, como a família, a escola, a igreja e o trabalho.

Ingenuamente, portanto, a população trans-desarmarizada se comporta de maneira totalmente destrambelhada, desorganizada, despolitizada e, sobretudo, desinformada. Continua, como eu disse no início do texto, “esmolando” o respeito e a “aceitação” da população para suas "existências abjetas" e suas “práticas libidinosas”, como se residisse nessas práticas o ódio e o desprezo da sociedade.

Não reside. Esses argumentos de “cunho moral” são apenas uma cortina de fumaça sobre as verdadeiras razões de discriminação, exclusão e violentação da população transgênera. 

Na raiz do ódio às pessoas transgêneras está o fato, único e definitivo, da sua transgressão a um dos marcos essenciais de construção e manutenção da sociedade burguesa-capitalista: a divisão binária de gêneros entre homem e mulher, a partir da apropriação político-cultural do sexo genital de cada pessoa. É essa "apropriação indébita" que gera e perpetua as estruturas de poder que vigoram na sociedade, as hierarquias e as desigualdades que continuam a ser ampla e espertamente “naturalizadas” como “herança da natureza”, embora sejam totalmente arbitrárias e artificiais.

A simples existência de pessoas transgêneras põe em cheque a "naturalidade" dessas "estruturas naturais". Uma pessoa transgênera é a prova definitiva e contundente de que homem e mulher não são produtos da natureza, mas produtos da sociedade. 

Não é a toa que seitas cristãs fundamentalistas advoguem e pratiquem com ardor "a cura de pessoas trans". Uma pessoa transgênera põe por terra a crença de que homem nasce homem e mulher nasce mulher. E mais: de que, “por vontade de Deus”, SÓ EXISTEM ESSAS DUAS E SOMENTE ESSAS DUAS CATEGORIAS DE GÊNERO, irremediável e inexoravelmente atreladas ao órgão genital de cada pessoa.Uma pessoa transgênera mostra que identidade de gênero não é destino, mas percepção individual de cada sujeito.

Esse é o imenso “pecado original” das pessoas transgêneras: transgredirem o dispositivo binário de gêneros. É esse "sambar na cara" das normas do dispositivo binário de gênero que transforma a transgeneridade em condição ao mesmo tempo "sócio-desviante" e "médico-patológica", ou seja, que patologiza e judicializa imediatamente toda e qualquer manifestação de natureza transgênera. 

Aí está a origem do inferno que é ser uma pessoa transgênera. Numa sociedade onde as pessoas foram obrigadas desde cedo a se ajustarem às camisas de força da masculinidade e da feminilidade, é inaceitável que haja pessoas rebeldes ao treinamento imposto a todos os indivíduos. O sucesso do modelo depende que todas as pessoas se mantenham permanentemente oprimidas e recalcadas quanto à "natureza natural" de cada uma, ou seja, perfeitamente programadas para ser e se comportar exclusivamente dentro dos parâmetros oficiais de uma masculinidade e de uma feminilidade que não têm nada de natural, por serem socialmente construídas, mantidas e reproduzidas a partir de discursos repetidos à exaustão na cabeça das pessoas, do berço à cova. "Seja homem!", "respeite suas calças!", "isso não é coisa de menina", "não se assente com as pernas abertas", "mulher tem que se cuidar; quem anda desmazelado é homem"... Durma-se com um barulho desses e acorde quem puder.

Um comentário:

  1. Adorei o texto. É duro mas verdade. Temos que ser mais militantes pelos direitos dos trans e homossexuais. Mas pior já foi. Agora falamos em direitos e antes que só havia rebeldia e guetos para se esconder? Vamos conquistar sim nosso espaço. Mais longe já estivemos...abraço a todos!

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