quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Amores e Feridas

As pessoas que mais amamos neste mundo são as que podem nos ferir de modo mais doído e profundo. É como se elas soubessem – e todas sabem – onde cravar suas flechas no nosso peito de modo muito mais certeiro e cruel. O amor arromba nossas portas, escancara nossas defesas, deixando-nos completamente a mercê das pessoas que amamos, inteiramente vulneráveis ao que elas nos dizem e nos fazem, mas sobretudo ao que elas não nos dizem e não nos fazem.

As pessoas que amamos mantêm sobre nós, que as amamos, um poder muito acima do comum, que muitas, displicentemente, fingem desconhecer, principalmente depois de terem nos levado para o fundo de algum poço e lá nos abandonado, sem nenhuma piedade ou pudor.

É como se lhes tivéssemos delegado “passe livre” – e a muitas realmente o fizemos – para se locomoverem completamente à vontade, tanto dentro das nossas casas como dentro das nossas almas. Com tão amplo acesso e livre trânsito em nossos corações e mentes, é fácil imaginar o que significa para nós uma palavra de apoio e um gesto de carinho das pessoas que amamos. Como também não é difícil imaginar o tamanho dos estragos emocionais que são causados em nós pelo julgamento moral dessas pessoas. Um simples comentário ou crítica “inocentes” dessas pessoas, assim como o seu descaso ou rejeição por que algo que somos, temos, pensamos, sentimos ou fazemos, é capaz de nos nocautear emocionalmente.

Há também as pessoas amadas que podem e têm para dar o que quem as ama precisa, mas que fingem desconhecer completamente essas demandas ou se negam terminantemente em atender o que lhes é pedido. Esse “egoísmo sádico” é a maior de todas as frustrações que alguém que ama pode encontrar nas pessoas amadas.

Alguém que amamos muito pode nos salvar de muitas tempestades, mas também tem o poder de causá-las, aprofunda-las e piorá-las, ainda que inadvertidamente, como depois a pessoa, em geral constrangida, nos alega.

Mas que ninguém se engane, sobretudo as pessoas mal-amadas: - ser amada é ainda mais difícil do que amar! Amar é simples: basta eu dizer que eu amo e pronto. Ser amado dá muito mais trabalho. Quem nos ama espera sempre muito de nós, quase sempre muito mais do que temos para lhes dar ou podemos lhes proporcionar. O amor idealiza demais as pessoas amadas, transformando-as em verdadeiras super-criaturas, dotadas de superpoderes que, quando falham – e como falham, porque as pessoas amadas são só pessoas humanas! – viram motivo de grandes decepções.

Com todas as dificuldades de amar, não podemos despachar o amor das nossas vidas porque ele é o oxigênio do nosso espírito. Nunca podemos duvidar do amor ao ponto de trancar de novo todas as nossas portas e janelas cada vez que a gente se decepcionar com uma pessoa amada. Pode ser que tenhamos dirigido nosso amor à pessoa errada, de modo errado, na hora errada, como é impossível, eu sei, fazer com que alguém nos ame do modo como desejaríamos e precisaríamos ser amadas.

Pois é sempre possível continuar procurando. Como dizem tantas canções, em algum lugar desse mundo sempre haverá alguém a nos esperar, pronta para nos amar com a mesma intensidade que nós desejamos amá-la.

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