quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Armário: abrigo ou prisão?


O armário é tido como a única saída para a maioria das pessoas com identidade gênero-divergentes ou “transgêneras”, muito particularmente para o segmento crossdresser, cuja maioria absoluta de representantes passa a vida inteira dentro dele. Em contextos sociopolíticos altamente transfóbicos como o que vivemos, o armário se insinua como uma forma segura e até desejável de sobrevivência individual. Mas não é. Ninguém pode viver com o mínimo de conforto e dignidade trancado em um cubículo que é, antes de mais nada, um cubículo mental. Não existe cidadania plena e muito menos dignidade humana para quem vive permanentemente coagido a se expressar como alguém que definitivamente não é.

Longe de ser um "equipamento de proteção individual" para quem nele se refugia, tentando viver seus desejos e sua intimidade sem a permanente ameaça de bullying, o armário é um dos instrumentos mais perversos e eficazes na repressão e exclusão social dessas mesmas pessoas. Peça fundamental de um vasto aparato sociocultural de repressão às expressões de gênero fora do binômio masculino-feminino, é o medo desse gigantesco aparelho repressivo-coercitivo que estimula a população transgênera a buscar voluntariamente a invisibilidade social por ele propiciada.

Só que o armário não defende nem protege ninguém. Apenas condena seus "moradores" a um auto-exílio forçado, em que essas pessoas são obrigadas a despender muita energia para criar e manter uma imagem pública aceitável, com a qual podem desfrutar do apreço e do respeito que são peremptoriamente negados a quem transgride as normas de gênero da sociedade.

Mas uma vez que se reconheça que a desobediência às normas de gênero não deveria de maneira alguma constituir motivo para a discriminação, a exclusão e a violência contra pessoas transgêneras - ser transgênero é normal e é legal - o armário se apresenta como um perfeito embuste, uma muito sedutora armadilha, através do qual a sociedade mantém controle quase absoluto sobre as manifestações de gênero fora do binário masculino/feminino.

É assim que, em nome de se resguardarem da rejeição familiar e social, pessoas transgêneras armarizadas contribuem involuntariamente para a manutenção da ordem cisgênera-heterossexual-machista que tanto os machuca e oprime, participando ativamente das suas instituições (como o casamento e a família tradicionais) e comungando dos seus valores (como a assimetria entre o binário de gêneros) que só servem para fazê-los sofrer e se sentirem socialmente inadequados.

A população transgênera precisa reconhecer o armário como instrumento de opressão, de exclusão, de preconceito e discriminação, em vez de aceitá-lo passivamente como uma espécie de “refúgio seguro”. É justamente por existir tanta gente transgênera resignada em viver humilhada e acuada no armário que a sociedade pode exibir orgulhosamente a sua hipócrita fachada de “normalidade cisgênera”, gabando-se de ser constituída por uma maioria de pessoas perfeitamente ajustadas às normas de conduta de gênero em vigor. Como ninguém denuncia ninguém, continuamos vivendo a grande farsa de um mundo ideal de dois gêneros em que, de quebra, a maioria absoluta é heterossexual. Pois sim...

As coisas seriam muito diferentes se a população transgênera, hoje confinada no armário, resolvesse manifestar-se publicamente, à luz do dia, exigindo seus direitos de cidadania. O medo, contudo, continua, não só atrasando, como causando grandes estragos no processo de avanço dos direitos humanos...

Se, por um lado, viver no armário pode ser considerada uma clara demonstração de fraqueza e covardia da pessoa assumir integralmente a sua identidade de genero, por outro não se pode culpar ninguém que opta por esse caminho. Em pleno século XXI, a despeito da conversa fiada sobre direitos humanos, ainda são extremamente graves e dolorosas as perdas e retaliações impostas a quem assume sua transgeneridade diante da família, da escola, do trabalho e de outros grupos sociais onde atua. Desprezo, humilhação, rejeição, exclusão e violência, além de penúria emocional e financeira continuam sendo ocorrências corriqueiras na vida de quem se assume publicamente como pessoa trans.

Diante de tantos perigos e ameaças, a decisão de viver no armário parece ser, sem dúvida alguma, a mais razoável e atraente, por ser aparentemente tão mais cômoda e segura. Entretanto, logo se descobrirá sua face sombria, que obriga a pessoa armarizada a praticar atos eticamente reprováveis como enganar, mentir, ludibriar, fingir, disfarçar e negar. Não é a toa que, popularmente, armário é sinônimo de enrustido, medroso, covarde, mentiroso, dissimulado e incapaz de assumir sua condição de transgênero.

Mas o maior problema do armário é que ele apenas abafa temporariamente os conflitos íntimos de quem nele se refugia, mantendo recalcadas (e portanto não-resolvidas) algumas das características mais autênticas e naturais da pessoa. Traços fundamentais da personalidade própria de cada pessoa que esperam a oportunidade de se expressar no mundo exterior. Em outras palavras, armário implica num imenso gasto de energia que, além de não levar a absolutamente nada, só piora as coisas.


Armário é apenas uma metáfora para a escolha e a adesão do indivíduo a um estilo de vida baseado no disfarce, na mentira, no engodo, no segredo, na dissimulação, na vida dupla, em detrimento de uma expressão pública e plena da sua identidade transgênera, ou seja, de um estilo de vida autêntico, baseado na transparência, na verdade e na integridade pessoal de cada indivíduo. Armário implica, assim, em se viver permanentemente dividido em duas pessoas: a pessoa que a gente realmente é e a pessoa que a gente quer (ou precisa...) fazer os outros acreditarem que a gente seja.

No armário, a espontaneidade da vida é substituída por uma auto-vigilância contínua, onde tudo deve ser controlado, onde todas as ações, contatos e movimentos diários da pessoa devem ser rigorosamente medidos e monitorados a fim de que jamais escape nenhum sinal da sua identidade oculta. Em seu refúgio do mundo, a pessoa armarizada acaba desenvolvendo uma absurda mania de perseguição, fazendo com que os muros de proteção em torno de si acabem se transformando em barreiras para qualquer tipo de ajuda do mundo exterior. O temor da pessoa armarizada em ser descoberta impõe a necessidade de ela ficar sempre em estado de alerta para “não dar na pinta”.

Com uma visão envergonhada, acovardada e culposa de si própria (totalmente distorcida, diga-se de passagem), a pessoa armarizada pensa que deve evitar a frequência a lugares que possam comprometê-la ou até denuncia-la, assim como evitar qualquer tipo de contato ou comunicação com pessoas que, de algum modo, possam associá-la à existência da sua identidade oculta. Ou seja, tentando proteger-se de pessoas que poderiam molestá-la, a pessoa armarizada se impede de fazer contato com pessoas e/ou grupos que poderiam ajudá-la a sair do armário ou, no mínimo, a viver nele de modo mais digno e confortável. Se é que pode falar de conforto quando se vive confinada a um cubículo que é, antes de mais nada, um cubículo mental.

Do ponto de vista psicossocial, armário, na realidade, é tão somente uma projeção da mente da pessoa armarizada, fantasma onipresente de uma sociedade que a força a agir contra seus próprios desejos e impulsos, a ser escrava de normas e convenções de gênero absolutamente imbecis, com as quais não se sente nem um pouco identificada e nem um pouco à vontade. Porém, em sua cegueira para defender-se de si própria, não vê que o armário não é seu protetor, mas seu grande carrasco obrigando-a, sem piedade, a manter o compromisso com uma ordem social que a rejeitaria e a excluiria de todas as formas e sob todos os pontos de vista caso ela manifestasse publicamente a sua identidade de gênero.

Como vimos, embora o armário seja tido como mecanismo de autoproteção, a realidade é que ele só aprisiona, escraviza e vicia, acarretando perdas altamente comprometedoras para a saúde psíquica e para a qualidade de vida das pessoas transgêneras que nele pensam estar instaladas em total segurança.

Por mais transtornos que o processo de sair do armário possa causar na vida de uma pessoa transgênera, passar toda a sua existência dentro dele é infinitamente mais cruel e desgastante. Com a sensível diferença de que os esforços para sair do armário sempre recompensarão a pessoa com ganhos expressivos em termos de crescimento pessoal, liberdade, equilíbrio existencial e consistência como ser humano, ao passo que permanecer indefinidamente dentro dele representa apenas um consumo crescente de energia que leva tão somente a mais retrocesso, mais estagnação, mais conflitos existenciais e mais depressão e ansiedade.

Sair do armário - e permanecer fora dele, que às vezes é mais difícil do que propriamente sair - é uma forma de resistência e de auto-afirmação dos direitos de livre-expressão dos indivíduos, assegurados na própria constituição do país. Por mais complicada e difícil que seja essa empreitada, ela representará sempre um grande salto na vida de indivíduos de outra forma condenados a viverem escondidos para sempre nos seus armários, apavorados com a possibilidade de serem descobertos.

Leitura sugerida:
SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemology of the Closet. Los Angeles-USA,, University of California Press, 1991.
MISKOLCI, Ricardo. DOSSIÊ: SEXUALIDADES DISPARATADAS. Campinas, Cad. Pagu no.28 Jan./Junho 2007

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