segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Até o sec. XVIII, machos e fêmeas eram variações de um só e único sexo

Nem sempre foram óbvias as diferenças fisiológico-anatômicas entre homens e mulheres. Durante quase dois mil anos, essas mesmas diferenças que são usadas como suporte aos discursos machistas mais caretas e reacionários simplesmente não existiam.

O reconhecimento da existência de dois sexos biologicamente diferenciados é fato muito recente na história da humanidade. Até o início do século XIX, homens e mulheres foram considerados variações de um só e único sexo: o sexo masculino. Isso mesmo: na espécie humana, a fêmea só passou a existir como “categoria biológica independente” a partir de meados do século XVIII! Até então, reinaram soberanas e inquestionáveis as idéias de Galeno, médico e anatomista que viveu em Roma no século II dc, a partir das quais a fêmea era concebida apenas e tão somente como um “macho encruado”.

Examinando a aparência externa dos órgãos genitais masculinos e comparando-os com a aparência interna dos órgãos genitais femininos, Galeno concluiu que, vertido para dentro, o escroto seria o útero e que os testículos seriam os ovários, um de cada lado do útero. Por sua vez, o pênis, vertido para dentro, também não seria mais do que a vagina. De acordo com Galeno, o aparelho genital da mulher nada mais era do que o aparelho genital masculino vertido “para dentro” – ou que não teve força suficiente para sair para fora. Assim, desde Galeno, e por mil e seiscentos anos adiante, acreditou-se que as fêmeas possuíam os mesmíssimos órgãos sexuais dos machos.

Machos e fêmeas eram um mesmo e único sexo, com a diferença das fêmeas terem esse sexo “menos desenvolvido” do que os machos. A fêmea seria, então, apenas um macho “com menos potência”, um “macho subdesenvolvido”. Essa visão é atestada pelas descrições e ilustrações de livros renascentistas de anatomia, assim como pelos termos idênticos com que eram denominados tanto os órgãos genitais masculinos quanto os femininos.

É fácil perceber o quanto essas “ideias científicas”, junto com crenças religiosas igualmente destituídas de fundamento, apenas “espelhavam” e “respaldavam” a ordem sociopolítica vigente como, aliás, até hoje acontece. O modelo do sexo único permaneceu válido por quase dois mil anos, num claro exemplo de como, no caso da sociedade humana, a “cultura” impõe-se absoluta sobre a “natura”, através de seus complexos dispositivos de controle político e social.
Até meados do século XVIII (1700-1800), houve somente um único sexo biológico e dois “sexos sociais” – o masculino e o feminino, que ainda não eram conhecidos como “gênero”, mas que, tal como hoje, compreendiam papeis sociais, obrigações e direitos amplamente distintos entre os seres humanos. Nem a “descoberta” da próstata, no homem, e do clitóris, na mulher, nem as evidentes e notórias diferenças de “fluídos corporais” entre um e outro ou a flagrante diferença entre o tecido da parede uterina com o tecido da bolsa escrotal foram suficientes para abalar a idéia de que existia apenas o sexo masculino.

Já que só havia um sexo, em graus distintos de potência, não era o pênis - ou a ausência dele - que determinava o sexo a que o indivíduo pertencia. Mas era evidente que possuir um pênis “externo” assegurava ao sujeito direitos e privilégios sobre quem o pênis não tinha sido capaz de “sair para fora”. Alguém cujo pênis tinha ficado “encruado” do lado de dentro.

Assim, não se pode afirmar que as diferenças anatômicas foram responsáveis pelo surgimento das diferenças sociopolíticas até hoje existentes entre machos e fêmeas, como algumas pessoas ingenuamente acreditam e defendem. Essas diferenças simplesmente não existiam, ou melhor, a sua existência não era nem reconhecida, nem legitimada. Foram condições políticas, econômicas e sociais muito objetivas que determinaram a supremacia histórica do macho sobre a fêmea, configurada na hierarquia até hoje existente entre os sexos.

Também não é por simples acaso que as relações de poder do macho sobre a fêmea só começaram a ser questionadas a partir de meados do século XVIII, no rastro do “tsunami” político-social que foi a Revolução Francesa. Essas diferenças, até então, tal como as monarquias absolutistas, eram vistas como perfeitamente naturais e “totalmente desejáveis”, tanto do ponto-de-vista humano quanto do ponto-de-vista “divino”. Foi a partir desse momento histórico que as relações entre homens e mulheres, baseadas numa suposta “superioridade” de um sobre o outro, começaram a ser questionadas e paulatinamente substituídas pela ideia da existência de “diferenças sexuais” entre “eles” e “elas”. Até então, como vimos, “eles” e “elas” eram uma coisa só.

Com a alteração da “ordem sociopolítica”, puderam ser questionadas as ideias de Galeno que, por séculos, sustentaram o isomorfismo entre os machos e fêmeas da espécie humana, assim como as metáforas religiosas e culturais especialmente construídas para explicar e justificar a superioridade masculina a partir da sua anatomia.

Somente com a chegada do século XIX os órgãos reprodutivos da mulher passaram a ter “nomes próprios”, deixando de ter os mesmos nomes de órgãos da anatomia masculina. Mas foi preciso esperar mais um século até que as mulheres se reconhecessem como sujeitos da sua própria história e lutassem para ser vistas como uma categoria própria. Diferentes dos homens, mas com direitos idênticos a eles – e não apenas como “machos menos potentes” que devessem submeter-se, sem questionamento, aos “machos potentes”.

(Letícia Lanz)


Bibliografia: LAQUEUR, Thomas. A invenção do sexo. Rio de Janeiro : Relume-Dumará, 2001.

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