segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Autoestima escorrendo pelo ralo - Divã da Lelanz

Letícia, estou com 65 anos e sou psicóloga de profissão. Sou casada, mas nunca falei com a minha mulher sobre a minha condição por considerá-la extremamente superficial e preconceituosa. Estamos juntos há 25 anos, mas sinto que ela vem tendo experiências extraconjugais e isto me faz sofrer muito. Tenho a sensibilidade à flor da pele e percebo quando ela passa por uma aventura! Incrível, mas eu, sendo uma pessoa transgênera, e tendo os impulsos que tenho, nunca a traí. Sempre fui amorosa e dedicada! A questão de eu me gostar mais um pouco, de me valorizar, de buscar o meu espaço, tudo isso eu sei, mas cadê coragem para dar um basta, romper com essa situação! Estou ficando deprimida, vazia, cansada, temo estar só e idosa. Perdi realmente o chão e nem vontade de me travestir eu estou tendo. Gostei muito do seu blog, com assuntos bastante ricos e diversificados, de interesse de todas as pessoas trans. Me dá uma luz, um solavanco se necessário, pois estou literalmente "escorrendo pelo ralo"! Desculpe-me pelo desabafo, mas é isso. Beijos da Deborah*

Querida Deborah,

Em primeiro lugar, obrigada pela sua visita e pelos seus comentários tão lisonjeiros sobre o meu site. Agradeço também sua confiança em compartilhar comigo esses aspectos da sua intimidade. Como psicóloga que você é, sabe o valor inestimável de uma boa transferência – e é assim que eu vejo essa sua mensagem: uma transferência feita com muita confiança.

É com base na confiança que você depositou em mim que comentarei a sua mensagem.
Em primeiro lugar, notei que você está se debatendo com duas questões inteiramente distintas: - a sua condição transgênera e o seu casamento. Por que, no seu caso, eu separei em duas coisa distintas, já que uma tem profundas implicações na outra? Porque, antes de ter uma questão com a sua mulher, diretamente relacionada com a sua transgeneridade, você está tendo uma questão com ela a respeito da sua própria vida conjugal. O perigo, inclusive, é que essas duas coisas, tão distintas, acabem se misturando na sua cabeça, como parece, aliás, que já está acontecendo. Essa confusão pode dificultar ainda mais o encaminhamento de cada uma delas.
Portanto, minha primeira sugestão é que você separe urgentemente essas duas coisas e trate cada uma delas em separado. Comece, por exemplo, discutindo as bases da relação matrimonial que vc mantém com sua mulher, já que elas estão lhe parecendo tão pouco claras, tão pouco explícitas e seriamente comprometidas pela sua suspeita de ela esteja tendo casos extraconjugais. Como psicóloga, você sabe a saúde das relações matrimoniais depende da discussão franca e aberta dos problemas, desejos e aspirações de cada um dos cônjuges.
Em virtude da complexidade dessa discussão, e do estado de ânimo bastante ambíguo que você revela no momento (de um lado, magoado de ter que pensar nas suas suspeitas e, de outro, temeroso de envelhecer e ficar só, sem uma companhia ao seu lado) seria uma excelente ideia se você a convencesse de vocês buscarem, juntos, a ajuda especializada de um terceiro. Na falta disso, você terá que se fortalecer muito, provavelmente iniciando uma boa análise, a fim de adquirir a coragem suficiente para colocar e resolver sua questão matrimonial por você mesmo.
A segunda questão que você tem a resolver é o que você quer fazer a respeito do seu desejo de se travestir. Não importa a idade que uma pessoa trans tenha, o desejo de travestir não vai abandoná-la facilmente. Mesmo porque existem mulheres de 20 e existem mulheres de 80 anos! O limite aqui não é a nossa idade e sim a aceitação íntima da nossa própria condição de pessoa transgênera.

Você sabe muito bem que o medo que vc tem que sua mulher não o aceite (e que pode até existir) é proveniente da sua própria dificuldade de se aceitar. Quando a gente se aceita, de verdade, passa a “cagar e andar” para o que os outros pensam ao nosso respeito. E desde que estejamos cumprindo com todos os nossos acertos e responsabilidades matrimoniais (sociais, profissionais, etc), ninguém tem absolutamente nada a ver com a nossa identidade de gênero!

Quando eu me aceito, eu me fortaleço inclusive para exigir respeito por parte das outras pessoas. A sua mulher pode não gostar, pode chiar, pode espernear, pode fazer o que bem entender. Mas ela não tem o direito de lhe negar respeito, ninguém dá a ela o direito de julgar a sua condição e de exigir de você esse ou aquele comportamento. Nem Deus tem esse direito, uma vez que rezam as tradições ter ele concedido ao homem o “livre-arbítrio”.

Novamente, aqui, entra em cena a questão de uma análise que lhe dê suporte para essa autoaceitação. Que lhe abra os olhos e lhe fortaleça para exigir que os outros respeitem o seu desejo, assim como você respeita os desejos deles. Diga-me: no que é que o desejo dos outros é melhor do que o seu? No que é que sua mulher, sobre quem, inclusive, pairam hoje as suas suspeitas de conduta irregular dentro do seu acordo matrimonial, no que é que ela é melhor ou superior ou mais virtuosa ou mais certinha ou mais ajustada que você? Será que vc não percebe que o fantasma está lhe assustando porque você se deixa assustar? Será que vc não se dá conta de que basta fazer um belo “buuuuuuh” diante dele, antes que ele faça “buuuuuhhh” diante de você?
O que está indo para o ralo é a sua autoestima, principalmente pela vergonha que você sente em querer se vestir de mulher. Para recuperar a sua autoestima, você precisa levar seu desejo às últimas consequências, se for o caso. O seu jejum a respeito do seu desejo está emagrecendo ainda mais a sua autoestima, que você precisa manter em alta se quiser levar o seu desejo adiante.

Sei como é complexa a condição de pessoa transgênera. Eu vivo isso na minha própria pele, o tempo inteiro. Carregar, no mesmo corpo e com a mesma psiquê (se forem duas é cisão psicótica, né?) duas pessoas sobre as quais pairam expectativas sociais tão diferentes e algo bastante desafiador. Cada um resolve essa questão da maneira que pode, uns mais confortavelmente, outros menos, outros de jeito nenhum.
É preciso sair, pelo menos dessa categoria “de jeito nenhum”. É preciso encontrar um ponto onde se apoiar para realizar o seu desejo – e esse ponto é VOCÊ MESMA. Não coloque sobre os ombros das outras pessoas a responsabilidade pela sua realização pessoal nem se deixe abater pelo que eles pensam ou dizem ao seu respeito. A palavra de outra pessoa só pode acabar com você se você já estiver acabada! E devo lhe lembrar que você está viva e pulsante, uma vez que o seu desejo está vivo e pulsando dentro de você.
É o que tenho a comentar. Por respeito à confiança que vc me depositou não publicarei a integra da sua mensagem, deixada no blog. Prefiro guardar entre nós, como revelações muito sinceras e preciosas.
Por favor, não hesite em se comunicar comigo se julgar que eu lhe possa lhe ser útil em alguma outra coisa.

Beijos, 

Letícia Lanz

 

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