sábado, 27 de agosto de 2016

Autoerotismo e fetichismo podem estar nas raízes do desejo de transicionar

Até onde o fetiche e o autoerotismo são motivações poderosas na vida de pessoas transgêneras, em especial as pessoas transgêneras MtF (masculino transacionando para o feminino)? Se for feita uma enquete dentro do gueto, é mais provável que esmagadoramente prevaleça o “não”, junto com uma clara indignação por uma hipótese como essa estar sendo levantada.

Associar a transgeneridade com fetichismo e auto-erotismo sempre causou extremo furor entre ativistas, pesquisadores e profissionais de saúde, horrorizados com a ideia de que a condição transgênera pudesse resultar, ao menos em parte, da busca obstinada pela realização, em última análise, de uma parafilia, em que o objeto do desejo sexual desviado seria a própria pessoa autora do desejo, transformada num corpo de mulher.

Esse autoerotismo é, inclusive, tema de um dos trabalhos mais controversos dos últimos tempos na área dos Estudos Transgêneros . Na obra The Man Who Would Be Queen (O Homem Que Queria Ser Rainha), publicada em 2003, o psicólogo J. Michael Bailey criou uma tempestade com a divulgação da teoria que transexuais MtF podem desejar fazer a cirurgia de reaparelhamento genital não por acreditarem ter nascido no corpo errado, como reza o seu velho jargão, mas por se sentirem sexualmente excitadas com a ideia de se verem a si mesmas como mulheres.

Os estudos de Bailey foram profundamente influenciados por outro pesquisador, o Dr. Ray Blanchard, do notório Clarke Institute, de Toronto, Canadá. Aliás, foi o Dr. Blanchard que deu o nome de autoginefilia a essa condição clínica popularizada (e polemizada) pelo livro de Bailey.

O repúdio instantâneo da maior parte da comunidade de transexuais pela associação da transexualidade com uma simples manifestação de sexualidade parafílica bem mostra o pudor (e até mesmo o repúdio) de se considerar a hipótese da existência de um desejo sexual “desviado” e “perverso” na gênese da transexualidade. Esse pudor pela manifestação do desejo sexual é, aliás, muito comum entre transexuais MtF, ao contrário das travestis, que sempre declararam abertamente a busca da sua realização sexual como parte integrante da sua própria identidade.

Apesar desse “esforço de retórica nitidamente moralista” da comunidade trans para repudiar e combater fortemente a existência de qualquer traço de autoerotismo e/ou de fetichismo na raiz do fenômeno transgênero, há muitos fatos concretos que contribuem para demonstrar exatamente o contrário, ou seja, uma notória influência de motivações autoeróticas e/ou fetichistas na personalidade de mulheres trans.

Para a maioria das mulheres trans, não basta ser ou expressar-se como mulher. É necessário que elas sejam “A” mulher, atingindo estonteantes padrões de beleza física, difíceis até mesmo de ser atendidos por mulheres nascidas como fêmeas genéticas.

Essa idealização altamente erótica e sexista da “mulher que eu quero ser” põe em questão um ponto crucial na vida de grande parte das mulheres (e também de homens) trans: não serve ser e/ou se expressar como “mulher feia”; é preciso transicionar para tornar-se uma pessoa bonita, sensual, atraente e sex, numa clara demonstração de que há maior preocupação com uma suposta estética feminina do que propriamente com o ser e o ocupar o lugar de mulher na sociedade. Nessa busca desenfreada por uma conformidade com os estereótipos de mulher em vigor na sociedade, muitas mulheres trans são capazes de realizar dezenas de cirurgias e tratamentos feminizantes que muitas vezes resultam em intervenções corporais mutilantes e deformantes. Tudo para serem “mulheres cobiçadas”. Mas até que ponto, como estamos indagando neste artigo, mulheres cobiçadas, antes de mais nada, por elas próprias?

A enorme popularidade de concursos de beleza entre mulheres e homens trans, assim como o absurdo volume de acessos a páginas, sites e blogues da internet que tratam do transicionamento do ponto de vista estético/erótico/sensual são evidências que também ajudam a atestar o insistente grau de autoerotismo e fetichismo sexual existente dentro do gueto transgênero.

A verdade é que, para um grande número de mulheres trans, essa preocupação estética com a beleza física e a aparência vão muito além do que pode ser considerado uma legítima preocupação da pessoa em “passar com segurança” numa sociedade predominantemente cisgênera e, portanto, perigosamente transfóbica.

E da mesma maneira que elas buscam obstinadamente o seu mais perfeito encaixe no estereótipo de “mulher desejada”, também fazem de tudo para excluir e agredir candidatas à transformação MtF que estão nessa busca por motivos bem mais simples e prosaicos do que a idealização autoerótica e fetichista da mulher. É aí que as ideias de Bailey e Blanchard podem trazer alguma luz aos debates, por mais controversas que sejam. Afinal de contas, não há algum em buscar, nas próprias transformações, a realização de uma imagem mais-do-que idealizada de mulher. Ou melhor, o único mal que há é negar insistentemente que essa busca autoerótica e fetichista não faz parte do repertório transgênero, e menos ainda do repertório da transexualidade.

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