quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Transgeneridade "domada" por remédio tarja-preta - Divã da Lelanz

Cara Letícia, é possível que você se lembre de mim pois nos últimos 4 anos de vez em quando trocamos mensagens. Agora venho de uma submersão de mais de ano e volto para te contar o que aconteceu. Só para te lembrar, sou daquelas que, desde pequeninhas, adoram se vestir, produzir, pintar mas tudo no armário ou no exterior pelo tremendo medo da exposição. Já gastei muito dinheiro nisso. Tenho família e vida profissional organizada. As roupinhas são uma "compulsão" fortíssima e no começo do ano fui atrás de um psiquiatra e sem dizer exatamente o meu problema (até para ele eu não poderia revelar) tentei obter um remédio que me livrasse da " compulsão". Ele me deu Lexapro e venho tomando diariamente. Pra começar esse remédio parece que me tirou a vontade de vestir e no início fiquei contente. Passadas semanas fui ficando infeliz e sem tesão para nada. Aliás, atividade sexual nenhuma, igual a zero. O tempo foi passando e eu me entristecendo, até que desenterrei o meu tesouro (roupas e adereços) e tive uma melhora. Mas o tal remédio é mesmo forte e não fiquei tão contente com a produção como eu ficava. Agora penso em parar de usar o remédio pois parece que fiquei vazia, seca por dentro... Vivo para o trabalho e família, mas tristíssima por dentro, infeliz demais. Diz pra mim: tudo isso é bobagem não? Quem é cd não deixa de ser com remédio, não é? Tem que assumir, não? Juro que essa fase louca que eu estou passando, mas louca que ser CD, você já deve ter ouvido falar! Me ajuda com a tua orientação, pois eu estou desesperada! Bjs, Tatiana Mendes*
* nome fictício, para preservar a identidade da pessoa que fez a consulta.

Olá Tatiana,

Bom dia. Lembro-me bem de você. Trocamos diversas mensagens nas quais, de modo claro ou veladamente, você deixava antever suas dificuldades de lidar com a sua condição transgênera de uma maneira mais natural e confortável. Dificuldades que, como você deve ter conhecimento pelas suas viagens na internet, são muito mais comuns e atingem muito mais pessoas do que se possa imaginar.

Em primeiro lugar, quero lhe dizer que o estado de ânimo em que você se encontra não é nada saudável - e você sabe disso. Perigosamente, para a sua saúde psíquica, sua ansiedade anterior "cristalizou-se", bloqueando junto a sua vitalidade. Libido nada mais é do que energia vital e sexo é um dos canais mais poderosos de manifestação dessa energia. O nome dessa "fase louca" que você diz estar passando é depressão, tédio existencial, o terrível "demônio do meio dia" descrito por Andrew Solomon¹.

Sua ansiedade foi "domada" pelo medicamento, virando depressão. Por medo dos estragos que a água pudesse fazer nas suas "plantações", você barrou sistematicamente o curso natural do rio da sua vida. O medicamento, fortíssimo, foi sua última e mais desesperada estratégia para conter a fúria das águas. O medicamento funciona como o concreto das grandes barragens, levando o rio a formar um imenso lago de águas represadas.

Entretanto, lembre-se que o médico lhe receitou essa "barragem" exclusivamente em razão do quadro que você lhe relatou. Um quadro totalmente falso, como você disse, pois você omitiu qualquer informação a respeito da verdadeira origem do seu mal-estar crônico. O médico só fez o que você lhe pediu ao lhe dizer: - por favor me ajude a estancar o fluxo da vida em mim pois eu não estou em condições de lidar com tanta intensidade. Ele fez isso. E fez até muito bem feito.

Mas veja só, minha amiga, a esparrela em que vc se meteu: - você lhe pediu um medicamento para uma "doença" que vc não tem, que jamais teve. Até quando você vai continuar teimando com você mesma que a expressão da sua transgeneridade é uma "doença"? Pior ainda! Imaginemos que sua compulsão para se travestir fosse realmente uma doença, como você acredita, com base na "sabedoria pai d'égua" dessa sociedade podre e decadente em que vivemos. Vamos chamar essa doença de "X". Então você vai ao médico e lhe pede remédio: 1) para uma "doença" que só existe na sua cabeça e 2) para uma doença que você lhe nomeia e descreve como "Y", sem mencionar nadinha da tal doença "X"! O resultado é esse aí que você está vivendo. O médico deu a você um medicamento para uma doença "Y" e é exatamente o sucesso desse medicamento que acabou detonando com sua vontade de viver. Você sabe que não queria ser tratada da doença "Y", assim como sabe que não existe nenhuma doença "X"! Apenas montou um belo cirquinho e foi para o centro do picadeiro, fazer o seu número predileto que é tentar fugir de si mesma.

Se o seu desejo fosse realmente conter o seu impulso de vida (eros), agora você estaria totalmente satisfeita e realizada com esse "remédio" que parou tudo na sua vida. Não está. Percebe que, fisicamente, seu fluxo energético foi contido, domado, e se encontra totalmente estagnado no momento atual. Mas, infelizmente, a psique humana não se deixa "domar" com a mesma facilidade que o corpo. A vida psíquica é independente e autônoma em relação à vida física. Essa foi a grande sacação de Freud: a química corporal pode ser mudada através de medicamentos, mas a "química psíquica" permanece resistente a qualquer intervenção via medicamentosa.

Resumindo os passos que a levaram ao desespero atual: você procurou o médico errado, na hora errada, para tratar de uma doença errada e o pior de tudo é que o tratamento deu certo. Deu tão certo que agora você está se dando conta de que não estava doente e que nunca quis realmente ser curada de coisa nenhuma! Como diz o ditado: "galinha que muito cisca acha cobra". Você achou.

Cada um sabe de si, de modo que eu não posso, não devo e nem quero lhe sugerir o que fazer. Todas as nossas escolhas têm os seus próprios "ônus" e "bônus". Cabe-nos balancear as coisas com discernimento e sabedoria, de tal forma que os ônus não sejam maiores do que os bônus - condição de vítima - ou os bônus se tornem maiores do que os ônus - condição de "espertalhão".

Neste momento, você está apenas arcando com os ônus da escolha que fez no início do ano - e tremendamente insatisfeita com os bônus que esperava obter daquela escolha. Não se iluda: - se tivesse feito outra escolha, da mesma forma teria que lidar com outros ônus e outros bônus. A questão é saber: que tipo de bônus pode me deixar mais feliz nesse mundo? Quanto de ônus eu estou disposta a arcar para obter o bônus que desejo?

Satisfação plena não existe. Como dizia Lacan, somos constituídos na "falta" e é essa "falta" que nos move. Ser "humano" é ser condenado à busca incessante pela satisfação que nunca poderá ser inteiramente obtida. Mas que, pelo menos, deve ser suprida, a fim de que a nossa vida não se transforme num interminável festival de frustrações. Ainda Lacan: "a única coisa pela qual alguém pode se sentir culpado nesse mundo é não correr atrás daquilo que lhe falta. É essa falta que ele chamou de "desejo".

Apenas um registro final: - não adianta procurar a ajuda de um mecânico de automóveis quando o seu computador é que está com defeito. Por melhor que seja o mecânico, ele dificilmente conseguirá dar um jeito no seu computador. Se você precisar - e, naturalmente, quiser - posso lhe indicar profissionais que poderão ajudar você de uma maneira mais objetiva, mais realista e mais satisfatória.

Contudo, o melhor profissional que você poderá visitar a qualquer momento, e de graça, é você mesma. Se você tivesse sido sincera com você mesma, teria se poupado dos grandes desconfortos que está vivendo no momento. Obrigada por compartilhar. Conte comigo sempre que quiser. Desejo-lhe muita paz, muita saúde e muita alegria. Cabe a você obtê-las.

Letícia Lanz



¹ SOLOMON, Andrew. O demônio do meio-dia - uma anatomia da depressão. São Paulo : Companhia das Letras, 2014.

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