quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Auto-bullying: a requintada arte de se auto-torturar

Cada vez que você compara seus dotes físicos, intelectuais e/ou financeiros com os padrões estabelecidos pela sociedade fatalmente você encontra alguma coisa que lhe falta, alguma deficiência, limitação ou imperfeição.

Modelos socioculturais de conduta foram feitos para funcionar como "espelhos de perfeição" onde cada pessoa deve permanentemente se mirar a fim de descobrir se está atendendo ou não as exigências da sociedade. É a forma mais elementar de controle, que nos mantém presas dentro da camisa-de-força sociopolítico-cultural.

Em vez de questionarem a desfuncionalidade desse “espelho”, denunciando o seu caráter totalmente artificial e arbitrário, desde a mais tenra infância as pessoas são condicionadas a questionarem a si próprias, e a sofrerem terrivelmente, cada vez que descobrem não estarem atendendo algum requisito exigido para se ter uma “boa imagem” no espelho social.

Assim, em lugar de afirmar a sua individualidade, alegando o supremo direito de ser quem a gente é, as pessoas entram em processo de sofrimento quando descobrem não estar sendo o modelo de pessoa que a sociedade estabeleceu e gostaria que elas fossem.

Se você foi convencida de que, para se sentir alguém neste mundo, deve corresponder a todos os padrões socioculturais de beleza, riqueza e poder, além de exibir feitos grandiosos no seu currículo, você é certamente uma vítima permanente da pior espécie de “bullying” que existe: o AUTO-BULLYING.

Em situação de auto-bullying, a pessoa se torna sua crítica mais ferrenha, a sua mais cruel e terrível perseguidora. Por mais detestável que seja, nenhum bullying vindo da parte dos outros é capaz de superar o grau de violência ou o poder de auto-destrutividade existente no bullying feito pela própria pessoa contra ela mesma.

Nenhuma forma de tortura supera a ação demolidora do auto-bullying. Nada é mais terrível do que ouvir aquelas “vozes internas”, dentro de cada pessoa, que, dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, zombam, censuram, bloqueiam, reprimem, condenam e penalizam o seu próprio estilo de vida, o seu jeito de ser e de levar a vida, os seus sonhos, seus desejos, seus erros e suas limitações. Imaginem alguém, ouvindo de si mesma, o tempo todo:

- Como eu sou feia (gorda, magra, burra, ridícula, etc., etc.)
- Quem pode gostar de alguém como eu!
- Eu não tenho nenhum atrativo pessoal.
- Minhas roupas são horríveis.
- Eu não tenho gosto para nada.
- Estou sobrando neste mundo.
- Não tenho sorte com nada.
- Eu não sou boa em coisa nenhuma.
- etc. etc. etc.

Não é necessário nenhum bullying externo para transformar a vida de uma pessoa num inferno se ela própria pessoa se considera destruída, com a auto-estima totalmente detonada, cada vez que descobre estar lhe faltando mais um item na interminável lista de padrões estabelecidos pela sociedade.

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