sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Marido ausente, esposa exemplar - Histórias da Letícia 02

Interfone quando toca lá em casa no sábado de manhã ou é testemunha de Jeová ou é motoboy fazendo entrega, em geral na casa errada. Era motoboy e não era a casa errada. Compramos ingressos para levar nosso neto ao teatro no domingo e o motoboy tinha vindo entregar.
- Bom dia, senhora. Os ingressos do sr. Geraldo Eu...Eus...tá...quio de Souza. Ele está?
- Não, mas pode me entregar. Eu sei do que se trata.
- O que é que a senhora é dele?
- Esposa.
- Ah, sim. Então pode colocar seu nome e o RG e dar uma rubrica aqui no recibo.

Eu já tinha começado a escrever em letra de forma, bem desenhadinho, LETÍC... quando o motoboy falou:
- Só um minutinho que eu vou apanhar a maquininha do cartão ali na moto...
- Cartão? Mas eu já fiz o pagamento pela internet!
- Ah, mas aqui não consta pago. A senhora pode ver que quando está pago eles carimbam o recibo e o seu não está carimbado (me mostra uma outra entrega onde tem um carimbo de pago quase do tamanho do próprio recibo).
- Mas eu paguei. Até recebi um email confirmando o pagamento.
- Então um minutinho que eu vou ligar pra lá.

Tenta uma, duas, três vezes e só ocupado.

Lá pela quinta ou sexta tentativa finalmente atendem. Começou então o previsível interrogatório: alguém do outro lado perguntava para o motoboy e ele fazia a tradução simultânea para mim.
- A senhora sabe em que dia foram comprados os ingressos?
- Anteontem.
- Sabe a hora?
- Foi à noite, por volta das dez, eu acho.

E prosseguiu o interrogatório, com outras “pérolas” da burocracia brasileira.
- Sabe a bandeira do cartão que foi usado para pagar? Sabe a sua “validade”? Sabe o nome da vó da mulher do presidente do Senado? Sabe quem matou Odete Roitman?

Uma a uma, fui matando todas as questões “no peito” (aff...), orgulhosa do meu desempenho como uma aluna de cursinho sendo sabatinada diante da turma.

Pausa para a “busca no sistema”, do outro lado da linha, e logo o motoboy retorna a esse lado do planeta com o veredito:

- É verdade: já está pago.

Alívio.

- Só que tem uma coisinha...

Desalívio: neste país, quando alguém lhe diz “tem mais uma coisinha...” pode esperar mais um terremoto burocrático.

- É que como não foi carimbado “pago” no recibo, eu só posso entregar os ingressos para o senhor Geraldo pessoalmente. A senhora poderia chamá-lo?

Na hora, me deu vontade de chutar o pau da barraca e responder solenemente “o senhor Geraldo sou – ou fui – eu: vai me encarar ou vai me entregar os ingressos?".  Mas era um belíssimo sábado-de-manhã de outono curitibano e eu não estava com a menor vontade de causar com o motoboy. Só queria os ingressos e nada mais.

- Mas o senhor pode entregar pra mim mesmo. Não vai ter problema nenhum. Eu e o Geraldo somos casado,s em comunhão de bens, há mais de sessenta anos. Temos até conta conjunta no banco, sabe? Aquela do “e/ou”...

Meus argumentos não tinham nada a ver “com as calças”, eu sei. Mas foram os melhores, digo, os únicos, que me vieram na cabeça, além daquele, já descartado, de me entregar como o próprio sr. Geraldo, em pessoa, fazendo uma daquelas cenas de último capítulo de novela mexicana. 

Mesmo sabendo que a burocracia jamais se rende a argumentos, por mais fundamentados e convincentes que sejam, resolvi apostar que eu seria a exceção do dia. 

O motoboy pensou por uns segundos, processando os meus argumentos, e não é que bingo! Fui contemplada com um tratamento fora das sagradas normas da empresa.

- É, eu acho que a senhora pode receber, né? Mas vamos ter que fazer um "arranjo". A senhora escreve aqui o nome completo do senhor Geraldo, põe o RG e o CPF dele e dá uma rubrica. A senhora sabe o RG e o CPF dele, não sabe?

- E como sei!, respondi triunfante. Não só do CPF e do RG dele mas de todos os seus documentos! Tudo de cor e salteado.

Vendo eu escrever, com letra de imprensa, o número dos documentos do “sr. Geraldo”, o motoboy viajou na maionese e “pensou alto”, deixando escapar um elogio à "esposa exemplar" que eu sou:

- Queria que minha mulher fosse assim como a senhora. Mas acredita que ela não lembra nem os números dos documentos dela?

Um comentário:

  1. Por não querer passar por isso, por não ter paciência nem qdo a Sandra que sou eu mesma , se parece vagamente com Sandra , e tem que se submeter a estas coisas, e por morrer de medo das complicações da hormonisação, é que continuo Sandra com vaga cara de Sandra!!!

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