domingo, 4 de setembro de 2016

Sexo bom é sexo sem culpa

Aí a pessoa faz toda aquela superprodução, digna de filme de Hollywood, e protagoniza uma das suas fantasias mais queridas e adoradas. Aí o orgasmo vem e a pessoa, em vez de desfrutar, mergulha na mais profunda culpa por ter realizado a sua fantasia.

Nesse ponto, toda a gostosura que foi aquele sexo vai pro sal. Em vez do sonhado “desejo realizado”, a pessoa entra em depressão.

Sexo e culpa sempre andaram juntos na nossa gloriosa sociedade judaico-cristã, em que sexo só deve ser feito entre um homem e uma mulher legalmente casados, mulher (direita) não deve gozar jamais e o orgasmo masculino só deve servir à causa da procriação. Qualquer variação nessa aborrecida e idiota cantilena “bitonal” condena a pessoa ao inferno ou, em tempos da tal revolução sexual que nunca houve, a terríveis dramas de consciência.

Coisa complicadérrima disciplinar o sexo, a mais caótica, rebelde e desordenada atividade humana. Nos tempos bíblicos, as interdições e maldições divinas parecem ter funcionado divinamente bem para segurar os impulsos selvagens e libidinosos da galera. Tempos bíblicos que, no caso brasileiro, o atraso mental e a imbecilidade conseguiram trazer para esse “pós-tudo” século XXI.

De jeito que, para muita gente, boa e má, crente e ateia, ainda vale o “sexo apenas depois do matrimônio”. Sem casamento, só selinho; beijo de língua, nem pensar.

Essa regulamentação do sexo, que até o próprio Freud enxergava, mesmo a contragosto, como fundamental para a existência da vida em sociedade, foi e continua sendo causa de muita insatisfação e angústia existencial.

Sozinha ou acompanhada, gente precisa fazer sexo: está no nosso implacável programa biológico. Alguns mais, outros menos, e uns poucos nada, fato é que a grande maioria das pessoas precisa de sexo como precisa de água, ar e alimento.

Exceto na cabeça de religiosos fundamentalistas retrógrados, o sexo entre um homem e uma mulher, e apenas no matrimônio, está longe de ser a única forma de se fazer sexo. Do ponto de vista da satisfação psíquica, toda forma de sexo vale super a pena e cumpre sua função, ao mesmo tempo relaxante e energizadora.

Mas é bom ter em vista que isso não obriga ninguém a sair desembestado, procurando todas as formas possíveis e imagináveis de se fazer sexo e/ou multiplicando exponencialmente o número de parcerias sexuais. Antes do sexo ser MUITO, ele tem que ser BOM. Antes de ser feito com MULTIDÕES, ele deve ser feito com PESSOAS CAPAZES DE DAR E DE RECEBER PRAZER. Mas, principalmente e acima de tudo, para ser recompensador, o sexo precisa ser feito SEM CULPA, ou seja, sem vergonha de se sentir prazer.

Ah, sim: depois de eu dizer isso tudo, você deve estar aí se perguntando como se livrar da culpa na hora de fazer sexo. E essa é a parte mais chata deste artigo. Diferentemente de poções miraculosas ou doses cavalares de viagra para "incrementar" o sexo, não há nenhuma fórmula mágica ou medicamento para se livrar da culpa de se fazer sexo.

Somos uma sociedade constituída sob a égide da culpa, portanto na total contramão do prazer. E essa ditadura da culpa é tão sutil e sacana que, hipocritamente, a sociedade chega a divulgar e até mesmo convencer as pessoas a buscar o prazer em todas as suas formas. Tudo de araque, é claro. Puro engambelo coletivo. Se a busca do prazer for levada realmente a sério, a pessoa vai acabar sendo vista como marginal e desviada, pois a sociedade não está a fim de perder o seu principal instrumento de controle sobre o comportamento das pessoas, que é a culpa.

Quem sabe que, com bastante sorte, cara de pau e tempo de análise (que pode ser anos ou décadas) você possa, um dia, se ver livre da culpa na hora de fazer sexo. Pelo menos na hora de fazer sexo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário