quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Um mar de cadeiras azuis - Histórias da Letícia 01

Certa vez fui contratada para fazer uma palestra sobre prevenção e combate de estresse num congresso de profissionais de saúde. Isso foi no tempo em que eu era considerada uma das melhores consultoras empresariais da minha área. Acho que todo mundo sabe que minha competência evaporou por completo e eu fiquei totalmente invisível para o mercado depois que eu transicionei...

O congresso seria realizado no Riocentro que, apesar do nome, fica muitas léguas distante do centro do Rio de Janeiro.

No dia de fazer a palestra no evento, estava eu lá, a postos, na hora marcada, mas ninguém da empresa que me contratou me contactou, de jeito que eu fiquei ali, mais perdida do que cebola em salada de frutas. 

Quando eu vi que ninguém aparecia mesmo, procurei na programação o salão em que aconteceria a minha palestra e me dirigi para lá.

Era um salão enorme, com capacidade para 500 pessoas ou mais. Cheguei, instalei a minha apresentação no computador do local, arrumei o microfone de cabeça que estava sobre a mesa e fiquei pronta para o trabalho.

Alguns minutos depois, apareceram um senhor e uma senhora que se instalaram na mesa do evento. Quando eu vi que fizeram questão de nem me notar, aproximei-me deles e me apresentei como a pessoa que faria a próxima palestra, forçando a barra elegantemente para que eles por sua vez se apresentassem a mim. Foi assim que eu fiquei sabendo, de maneira extremamente formal, lacônica e distante, que se tratavam do presidente da mesa e da coordenadora dos trabalhos.

Na hora agendada para o início da palestra, o presidente da mesa me chamou e me pediu para aguardar mais um pouco, uma vez que não havia mais ninguém além de nós naquele vasto e imenso salão, povoado de cadeiras vazias.

Passados quinze minutos, diante de uma gigantesca plateia de assentos vagos, o presidente da mesa declarou aberta a sessão, leu o meu currículo, entregou a direção dos trabalhos à coordenadora e pediu licença para se ausentar, pois tinha um outro compromisso agendado em seguida. A coordenadora, por sua vez, diante de uma multidão de cadeiras imóveis, explicou em linhas gerais o objetivo do evento, disse que eu teria 45 minutos para expor o tema, pediu licença para se ausentar e escafedeu-se.

Apesar do completo nonsense da história, concluí que só me restava fazer a coisa para a qual eu tinha sido contratada: assumir o meu posto de palestrante e dar o melhor de mim para uma plateia fantasma.

Assim, durante 45 minutos, apresentei o tema da prevenção do estresse de forma completamente livre, leve e solta, para fileiras e fileiras de cadeiras estofadas de azul. 

Ao fim da minha brilhante exposição para as paredes, dirigi-me respeitosamente à plateia imóvel e disse, um tanto ao quanto cinicamente, que me colocava à disposição para perguntas e comentários.

Por alguns minutos, olhei para aquele mar de cadeiras azuis sem receber de volta nenhum sinal de vida, até que ouvi, tímida, uma voz, vinda lá do fundo: 

    - Oi professor, gostei muito da sua palestra...

Completamente surpresa por descobrir que tinha tido, pelo menos, um  participante na minha palestra e que, além de tudo, a pessoa tinha gostado do trabalho, tratei logo de entabular um diálogo:

    -  Mesmo? Que legal? Obrigado. E quem é você, o que faz, de onde vem?
   - Eu? Eu sou da empresa que aluga os equipamentos de som para o evento. Estou responsável pelos equipamentos desta sala e da sala ao lado. Gostei tanto da sua palestra que nem fui lá ver como estavam funcionando os aparelhos durante a sua apresentação...


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