segunda-feira, 10 de outubro de 2016

De onde vem o poder dos seus opressores

Quase saltou em cima de mim para me esbofetear de raiva quando eu lhe disse que era ela mesma quem permitia que as pessoas fizessem aquilo com ela. E me rebateu, visivelmente transtornada:

- Você está louca! Quando é que eu ia permitir que alguém me agredisse, me humilhasse, me tratasse dessa forma violenta? Infelizmente, eu não tenho nenhum poder para decidir a minha vida. A única saída que eu tenho é me submeter.

Parei por ali. No seu atual estágio de vida, talvez lhe custasse demais enxergar e praticar a verdade a respeito da sua própria vida. Cada pessoa tem seu ritmo e seu tempo e o dela, infelizmente, ainda não chegou.

A verdade é que todo mundo já traz dentro de si, de fábrica, a capacidade de decidir e de mudar os rumos da própria vida, além do dom de participar decisivamente na mudança da vida de toda a sociedade da sua época.

Acontece, porém, que esse poder ilimitado, de rebeldia e criatividade capazes de produzir grandes transformações pessoais e coletivas, permanece reprimido e recalcado na maioria das pessoas, completamente entorpecido pelo medo e pela insegurança de ser e de agir de modo diferente do resto do bando.

A sociedade, especialmente a família e a escola, nos convence que não temos nenhum poder para tomar decisões e mudar o curso das nossas vidas como bem nos aprouver. Que devemos nos render e seguir incondicionalmente os modelos e padrões que nos são impostos pela sociedade, sem oferecer nenhuma resistência, por mais que consideremos inadequadas essas formas e estilos de vida.

É essa “rendição incondicional” da maioria aos projetos de organização política da sociedade que sustenta os projetos de dominação e poder dos grandes e pequenos ditadores, públicos e privados.

Quase ninguém percebe que o poder dos seus opressores, reais e imaginários, deriva exatamente da sua total alienação em decidir e agir por sua própria conta e risco. O poder dos “ditadores” surge e se reforça cada vez que uma pessoa, oprimida e molestada, desiste de fazer alguma coisa para se livrar da opressão. Como afirmou Foucault, o poder não se encontra em "grandes esferas" e altos escalões, mas nas práticas e nas relações mais elementares das pessoas seu dia-a-dia.

Quando alguém diz que não tem poder para mudar a própria vida (e/ou a vida da comunidade); quando alguém desiste de realizar as mudanças necessárias no seu estilo de vida; quando alguém se acomoda e cede às táticas de terrorismo e vitimação dos seus opressores, está apenas delegando o seu próprio poder pessoal aos seus algozes, permitindo que eles continuem a exercer suas formas de dominação e opressão.

Assim, paradoxalmente, o que mantém uma pessoa num estado miserável de submissão e impotência é a mesma força que poderia livra-la desse estado de dominação.

O problema é que dá muito trabalho empoderar-se, despertando o poder que existe dentro de cada uma de nós e que hoje, por falta de coragem para agir em nosso próprio benefício, a maioria acaba delegando aos seus ditadores.

Dá muito trabalho fazer esse poder trabalhar ao nosso favor - e não contra nós, como tem sido até agora, no caso da maioria das pessoas. Gera confrontos e desgastes, incômodos e desconfortos que a maioria quer evitar, a fim de não se expor ou se comprometer.

Enfrentar, em vez de se submeter, exige substanciais e profundas mudanças de paradigmas e de perspectivas existenciais, representando um enorme risco à manutenção das "zonas de (des)conforto" em que a maioria se acomoda de maneira (des)confortavelmente passiva e segura, alegando a sua impotência para assumir o comando e o controle da própria vida.

É graças a essa “preguiça para o enfrentamento” que grandes e pequenos ditadores, públicos e privados, continuam a nadar de braçadas na maré da dominação e exploração dos seus cada vez mais numerosos e conformados "súditos".

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