sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Dizer que alguém é homem ou é mulher não diz nada sobre quem a pessoa realmente é

A singularidade de cada ser humano não cabe - como jamais coube ou caberá - em um simples rótulo de gênero de homem ou de mulher que a sociedade patriarcal prega na testa de cada indivíduo que chega a esse mundo. O objetivo óbvio e insuspeito dessa classificação chinfrim é diferenciar, hierarquizar e controlar a vida das pessoas, em função da genitália de macho ou de fêmea que elas trazem entre as pernas.

“Homem" nada mais é do que o indivíduo macho - de nascimento - que foi social, cultural e politicamente "domesticado", instruído e exaustivamente treinado para atuar estritamente de acordo com o elenco de papeis, atributos, interdições e responsabilidades que a sociedade chama de "masculinidade".

De maneira análoga, "mulher" nada mais é do que uma fêmea - de nascimento - que foi social, cultural e politicamente "domesticada", instruída e exaustivamente treinada para pensar e agir estritamente de acordo com o elenco de papeis, atributos, interdições e responsabilidades que a sociedade chama de "feminilidade".

Em ambas as descrições anteriores a expressão “de nascimento” foi destacada a fim de enfatizar a ideia de que a sociedade não aceita que alguém, nascido fêmea, "torne-se" homem, nem que alguém, nascido macho, “se torne” mulher. A ideia embutida nessa milenar interdição é que o sexo genital determina, de maneira inexorável, o gênero de uma pessoa. Uma pessoa só pode se expressar como homem se tiver nascido macho ou como mulher, se tiver nascido fêmea.

Embora já tenha sido demonstrado, de muitas e das mais variadas formas, a completa falácia dessa ideia de gênero ser determinado pelo sexo e, portanto, ter que estar atrelado a ele, a maioria das pessoas continua acreditando que sexo é a mesma coisa que gênero e já nasce junto com a pessoa ou melhor, com o órgão genital que ela traz entre as pernas.   

Dizer que alguém é homem ou é mulher não diz absolutamente nada sobre quem a pessoa realmente é. Promove apenas o enquadramento dela dentro do dispositivo binário de gênero, que regula há milênios toda a vida sociopolítica e cultural da sociedade. O rótulo de homem ou de mulher dá apenas uma noção, ultrassimplificada, ultrapadronizada e completamente "pasteurizada" de quem a pessoa se tornou, depois de muita repressão, negação e recalque de partes substanciais da sua própria individualidade.

Para ser 100% homem ou 100% mulher, é preciso renunciar a ser gente.

É muito triste quando se vê alguém reduzir e concentrar toda a sua existência em um simples rótulo de gênero - homem ou mulher - e lutar por manter esse rótulo desesperadamente, como um cão faminto disputando um osso.

O rígido e inexorável sistema binário de gênero, como eu tenho dito sempre, é o grande - o único - responsável pelos padecimentos das pessoas transgêneras. Assim, é doloroso ver alguém, que se identifica como pessoa transgênera, virar bicho cada vez que pensa ou sente não estar sendo reconhecida ou legitimada numa das duas categorias oficiais de gênero.

Nessa aparentemente simples e ingênua exigência de enquadramento em uma das duas identidades oficiais de gênero estão ocultas todas as odiosas crenças em "essencialidades biológicas" que repudiam e tripudiam com a própria existência das transidentidades, reproduzindo-se a apoiando-se todos os execráveis mecanismos de opressão cisgênera que discriminam, excluem e violentam a população transgênera.

Mas será assim tão difícil perceber que qualquer defesa intransigente dos rótulos de gênero, praticada por boa parte da população transgênera, só contribui para nos manter a nós, seres humanos, nas prisões identitárias em que fomos encarcerados há séculos? E será que ainda faz sentido lutar por uma identidade oficial de gênero – de homem ou de mulher – em um mundo onde os papeis e responsabilidades masculinos e femininos na sociedade são cada vez mais indistintos e indiferenciados?

Ao "exigir" o seu puro e simples reenquadramento de gênero, dentro dos mais estritos padrões e critérios cisgêneros,
uma pessoa transgênera não apenas tenta negar o caráter altamente transgressivo do seu comportamento, como demonstra sua adesão explícita e inequívoca ao dispositivo binário de gênero. E definitivamente não dá para "posar" de revolucionária defendendo a ordem vigente.

A missão libertária da população transgênera não é sair por aí, idiotamente, "exigindo", das formas mais tolas e arcaicas possíveis, a sua “plena inserção” na categoria de gênero oposta àquela em que a pessoa foi enquadrada ao nascer, em função da sua genitália. Em vez de uma pessoa trans virar bicho quando alguém a chama de "homem vestido de mulher" ou a trata na forma masculina, devia ficar feliz por estar questionando e desconstruindo as normas de conduta de gênero em vigor na sociedade.

É cansativo, entediante, repulsivo e odioso pensar que as transidentidades, justamente as maiores vítimas do sistema binário de gênero, sejam capazes de atuar de maneira tão reacionária e conservadora, apoiando conscientemente a preservação das duas execráveis categorias de gênero - homem e mulher - em vez de ataca-las, repudia-las e agir decisivamente para desconstrui-las.

Mas em vez de atitudes políticas revolucionárias, voltadas para a desconstrução e o combate sistemático das desigualdades e arbitrariedades produzidas pelo dispositivo binário de gênero, o que se vê dentro do gueto transgênero é o predomínio de lideranças, pessoas, valores e posições extremamente reacionárias e conservadoras, tipicamente cisgêneras.

É essa adesão alucinada e delirante ao próprio sistema opressivo que reforça permanentemente a esdrúxula e patética necessidade que uma transidentidade tem de corresponder a 110% dos estereótipos de mulher ou de homem, se quiser ser aceita e respeitada, inclusive e principalmente dentro do altamente preconceituoso território transgênero.

Nada mais neurótico, depressivo, alienado e angustiante do que uma pessoa precisar ser chamada de mulher para que ela se reconheça, se legitime e se expresse como mulher na sociedade.

2 comentários:

  1. Letícia tenho acompanhado seu trabalho há pouco. Muito bom. Sucesso na sua luta.

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