sábado, 8 de outubro de 2016

Ninguém precisa ter um sexo para ter um gênero


Apesar das mais-do-que-atrasadas instituições médico-jurídicas da sociedade continuarem exigindo um pênis ou uma vagina para enquadrarem as pessoas respectivamente como homem ou mulher ao nascer, ninguém precisa de um sexo para ter um gênero.

A realidade mais do que já mostrou que pode-se, sim, ser homem sem ter nascido macho e ser mulher, sem ter nascido fêmea. Sexo biológico e gênero não têm nada a ver um com o outro, exceto na apropriação – indébita – do órgão genital, pela sociedade, a fim de implementar, a partir dele, um sistema arbitrário de divisão, hierarquização, atribuição de papeis e controle de conduta dos seres humanos, que nós conhecemos como gênero.

A sociedade foi tão eficiente e bem sucedida nessa apropriação, que as pessoas nunca questionam sequer o “programa do gênero” que, apesar de totalmente artificial, criado e mantido pelos interesses da ordem vigente, é assimilado pelas pessoas como se fosse uma determinação da natureza. Ou seja, ao prover as pessoas com um órgão destinado à reprodução da espécie, a natureza teria provido simultaneamente uma programação sociopolítica-cultural dos indivíduos, em que já estariam geneticamente previstos todos os atributos, papeis, atitudes, comportamentos, gostos, predileções e responsabilidades de cada pessoa.

Nada mais falso e sacana. Menino não gosta naturalmente de carrinho e menina não gosta naturalmente de boneca. Menino não gosta naturalmente de azul e meninas não gostam naturalmente de rosa. Desde antes de nascer, eles são mais do obrigados a gostar, mediante uma ostensiva e permanente “vigilância e terrorismo” social.

Não é o órgão genital que determina se a criança será homem ou mulher. O órgão genital nos informa apenas, dentro do modelo reprodutivo da natureza, se se trata de um “macho” ou de uma “fêmea”. O resto é fruto de educação, treinamento, repressão e punição.

Tanto que há indivíduos que nascem com um pênis e não conseguem se identificar “naturalmente” – nem à custa de muita repressão – com o modelo masculino imposto que lhes é imposto em função do seu órgão, como seria a expectativa “normal” da sociedade. O mesmo acontece com pessoas que, apesar de estarem dotadas de vagina, não conseguem se identificar “naturalmente” com o modelo feminino.

Nesses casos, a sociedade, através das suas instituições médico-jurídicas, não pensa duas vezes: se a pessoa não se enquadra “naturalmente” é porque é doente ou porque é delinquente. Ou seu DNA nasceu com defeito de programação ou a pessoa é rebelde e está a fim de transgredir as normas de funcionamento da sociedade.

Simples assim: ou é doente ou é delinquente a pessoa que não se enquadra na categoria de gênero que lhe foi atribuída ao nascer, exclusivamente em função do seu órgão genital.

Trata-se de uma visão absolutamente simplista da complexidade do ser humano e totalmente burra de como a biologia opera no caso dos seres humanos.

Ao contrário de todas as demais espécies animais existentes no planeta, no caso dos seres humanos conhecimentos e comportamentos não são transmitidos geneticamente, de uma geração para a outra, o que implica no longo processo de aprendizado social que os jovens indivíduos da nossa espécie estão submetidos.

Os biólogos teriam motivo para chamar de doente um cachorro que insistisse em miar, no lugar de ladrar, ou um cavalo que insistisse em rastejar, em vez de trotar. Todos os outros animais do planeta – exceto a espécie humana – nascem programados para ser e atuar conforme o seu código genético. A espécie humana é a única que nasce condenada a aprender a ser e a atuar: seu código genético impõe que uma geração “ensine” à outra o que ela por sua vez aprendeu da geração anterior.

Não existe corrente de pensamento mais defasada do que o chamado “essencialismo” de gênero, em que se supõe que o gênero é herdado simultaneamente com o sexo genital. E que, portanto, todo indivíduo humano que não tiver “herdado” naturalmente o gênero correspondente ao órgão genital que possui é uma pessoa doente, que precisa ser tratada.

Doente, como eu digo sempre, não são as pessoas, mas a sociedade, que teima em se sobrepor à própria natureza, exigindo que as pessoas sejam o que elas não são.


Doente, é quem continua a insistir, em pleno século XXI, que o gênero já está embutido no sexo e que, portanto, um macho TEM QUE SER E AGIR COMO HOMEM, assim como uma fêmea biológica TEM QUE SER E AGIR COMO MULHER.

Ninguém precisa ter um órgão genital específico para desempenhar uma categoria específica de gênero. Ou seja, não é preciso ter nascido macho para desempenhar as funções sociais de homem, como não é preciso ter nascido fêmea para desempenhar as funções sociais de mulher. As pessoas transgêneras são a prova contundente de que isso é verdade.

O raciocínio ridiculamente limitado das terfs (feministas radicais trans excludentes) tem seu eixo na crença antiga e ultrapassada de que gênero está inexoravelmente atrelado ao sexo genital, ou seja, alguém só pode ser mulher se tiver nascido com uma vagina. Raciocínio que, infelizmente, encontra eco dentro do próprio gueto transgênero, onde pessoas não menos ridiculamente limitadas insistem em que é necessário um “órgão genital específico” para se desempenhar uma categoria específica de gênero.

Ambos os grupos que, como se vê, pensam da mesma maneira, são ambos essencialmente “essencialistas”, ambos “fundamentalistas de gênero”. A única discordância, que tem gerado tolos e aborrecidos debates (melhor seria chamar de xingamentos recíprocos) é quanto ao “certificado de originalidade da vagina”: as terfs, como essencialistas radicais que também são, exigem que a vagina tenha que ser original de fábrica; adaptada não vale!

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