domingo, 2 de outubro de 2016

Por que o discurso de defesa do binarismo de gênero ameaça a luta pelos direitos civis das transidentidades

Uma das principais “armas” dos fundamentalistas religiosos é o “essencialismo biológico”, doutrina que eu apelidei de fundamentalismo de gênero, e que se resume no princípio – absurdo – de que homens e mulheres já nascem prontos e acabados, com um “programa de fábrica” contido em seu código genético. Os fundamentalistas religiosos vão mais longe ainda e acrescentam que esse programa teria sido criado pelo próprio Criador sendo, portanto, "imexível". Segundo esse povo, está tudo lá, direitinho, escrito na bíblia ou no DNA, conforme mostrado por pesquisas fajutas, patrocinadas invariavelmente pelo dinheiro de seitas religiosas. Conclusões de "ciências menores", como a sociologia e a antropologia, ou de movimentos sociais "suspeitos", como o feminismo e os estudos transgêneros, não merecem o menor respeito ou apreço.

Seguir a bíblia (ou obedecer o "código genético"...), para quem não sabe, significa, dentre outras coisas:

1 – a mulher render-se incondicionalmente à vontade do homem;
2 – a mulher manter o seu papel de “serviçal secundária” na estrutura da sociedade;
3 – a mulher ser a escrava do lar.
4 - a mulher reconhecer a sua plena inferioridade de talentos e possibilidades em relação ao homem.
Em resumo: ao homem, tudo; às mulheres, os serviços domésticos de cozinhar, lavar e limpar a bunda das crianças.

A condição de subalternidade da mulher não só está presente em diversas passagens dos textos “sagrados” das três religiões conhecidas como “religiões do livro” – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo – como é o próprio fundamento dessas três ideologias religiosas.

Nesse “discurso binarista”, que por mais cara de "ciência" que queira apresentar, está sempre metafisicamente baseado na “vontade divina” ou na "vontade da natureza", está mais do que que evidente o propósito central de afirmar a supremacia do homem e a total submissão da mulher a ele. 

É esse discurso que tem patrocinado, direta e indiretamente, ao longo de milênios, todo o aparato político-cultural da sociedade que educa o macho para “mandar” e a mulher para “obeceder”; o macho para "fazer" e a mulher para ficar esperando que seja feito.

É esse discurso que também, direta e indiretamente, tem sido o sustentáculo do conservadorismo e do reacionarismo de direita na sociedade.

Historicamente, com base na doutrina de separação dos sexos que garante nítida e ampla vantagem do macho sobre a fêmea, em todos os sentidos, o gênero – nitidamente um elenco de papeis, atribuições e comportamentos sociais esperados dos indivíduos - sempre foi considerado como uma “decorrência natural” do sexo da pessoa. Assim, se alguém nasce com genitália de macho, é automaticamente enquadrado como homem e se alguém nasce com genitália de fêmea, é automaticamente enquadrado como mulher.

Pode dizer que, por milênios, tudo correu perfeitamente bem em termos desse vantajoso arranjo social para os machos da espécie. Sempre se podia "dar um jeito" nos casos teimosos que insistiam em atrapalhar os “planos perfeitos” de Deus, produzindo pessoas hermafroditas, com características genitais dos dois sexos, hoje mais apropriadamente denominadas de intersexuais, que não se deixavam ser automaticamente enquadradas como homem ou mulher ao nascer. Não é a toa que, por muito tempo, a intersexualidade foi tida como “obra do demônio”...

Como sabemos, coube ao feminismo denunciar a falácia histórica de se considerar gênero como decorrência natural do sexo genital, mostrando ao mundo a diferença radical existente entre sexo e gênero.

Segundo a notável observação de teóricas feministas, o sexo é um mero atributo biológico, do qual a sociedade se vale para impor o seu discurso normativo de gênero. O sexo é mera anatomia e fisiologia do ser, apropriadas pela sociedade para serem transformadas em modelos sociais de conduta. 
Louvada seja sempre a nossa querida madame Beauvoir: "não se nasce mulher (ou homem): aprende-se a ser".

Um recém-nascido macho ou fêmea só se torna “homem” ou “mulher” pela força dos mecanismos de aculturação e socialização, numa dada sociedade e numa determinada época. Deixados a si mesmos, os bebês humanos nunca saberiam sequer nem mesmo se são “machos” ou “fêmeas”, quanto mais desempenhariam “naturalmente” os seus papeis na sociedade, como pretendem os “essencialistas biológicos” ou fundamentalistas de gênero. Ou os românticos produtores do filme "A Lagoa Azul"...

A “descoberta” do gênero como mero discurso normatizante da sociedade assustou e continua assustando tremendamente os fundamentalistas religiosos que, não por acaso, são também fundamentalistas de gênero.

E o medo desse povo é extremamente justificado pois, demonstrado que machos e fêmeas nascem totalmente iguais, com os mesmos potenciais e possibilidades humanos, a doutrina de supremacia do homem – e todo o elenco de vantagens e regalias masculinas – vai por água abaixo.

Daí a pesada contra-ofensiva de religiosos fundamentalistas e demais setores conservadores da sociedade tentando de todas as formas desqualificar a ideia de gênero separado de sexo, como um mero discurso normatizador da sociedade e, portanto, passível de mudança produzida por simples vontade política da população. Sem a bíblia (ou o DNA) para justificar, fica impossível de manter a ordem existente, baseada na cruel atribuição de gênero em função de sexo genital.

Não mais atrelado ao sexo, o gênero põe por terra todo o instituto milenar de dominação masculina baseada na superioridade do macho, deixando evidente a perfeita igualdade de atributos e possibilidades existente entre machos e fêmeas. Ou seja, acaba o fundamento para a hierarquia social produtora de cruéis desigualdades que, por milênios, tem mantido o homem no topo e a mulher na base da pirâmide de privilégios e vantagens na sociedade.

Na prática, a mulher mais do que demonstrou a sua absoluta igualdade de atributos com homem. Desde a II Grande Guerra, vem ocupando postos e funções sociais, políticas e econômicas até então consideradas exclusivas do homem, por absoluta “incapacidade” física e mental da mulher.

O problema é que, embora as evidências mais do que evidentes, a ordem patriarcal não se convencerá facilmente do seu próprio embuste. Trata-se de uma extraordinária perda do “status absolutista do homem”, mantido por milênios de dominação total, sobre a natureza e sobre a sociedade.

A luta está posta. Gênero que, como mostrei, constitui a própria base de manutenção da ordem social vigente, está sendo ostensivamente desqualificado pelos fundamentalistas e reacionários em geral como uma mera “ideologia”, inconsequente e passageira, produzida pela “esquerda”, que é como eles chamam hoje os “agentes do demônio” que, no início da renascença, eles podiam enviar para a fogueira à vontade e hoje estão tendo que "engolir".

Cuidado, portanto, com esses “inocentes” discursos em defesa do sistema binário de gênero, infelizmente tão comuns dentro do gueto transgênero, em que se confunde o sagrado direito humano de cada pessoa ser quem ela é e o que quiser ser, com um simples “enquadramento de barganha” scom a masculinidade ou com a feminilidade estereotipada.

Defender o direito de se ser o que a gente é e o que a gente quer ser é muito diferente de esmolar o ingresso num sistema binário de gêneros que há milênios se aproveita das diferenças naturais para impor as suas normas arbitrárias e artificiais de conduta. 

O mesmo cis-tema que, por sinal, exclui todas as transidentidades como transgressoras da "ordem natural", classificando-as de doentes e delinquentes. O mesmo cis-tema que jamais reconhecerá uma transidentidade como 100% mulher ou 100% homem, pelo simples fato da pessoa não ter nascido com as credenciais para fazer jus a tal enquadramento. Por mais perfeita que tenham sido executadas as suas transformações, tendo em vista os estereótipos de homem e mulher vigentes na sociedade, ela continuará a não ser plenamente reconhecida como tal.

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