domingo, 20 de novembro de 2016

Por um mundo melhor. Deles, naturalmente.

Quando eu era criança, havia um programa no rádio chamado “por um mundo melhor”. Na minha ignorância infantil, eu não tinha nenhuma noção do conteúdo do programa, mas fazia ideia de que devia ser algo muito bom, porque eu já sabia que “melhor” era uma coisa acima de boa.

Anos mais tarde, vim a descobrir que o tal programa era de um padre linha dura da igreja católica, extremamente reacionário, conservador e contrário a qualquer tipo de avanço no terreno dos direitos humanos.

Nunca soube se ele realmente praticava o que defendia mas, evidentemente, o “mundo melhor” de que ele falava era um mundo construído e mantido com base nos rígidos e intocáveis princípios morais da sua fé religiosa.

A ignorância é a mãe de todos os equívocos, além de permitir todo tipo de manipulação por parte de espertalhões. Como eu não podia entender a que “mundo melhor” o tal vigário estava se referindo, eu me concentrava na palavra “melhor”, achando que ele estivesse falando de algo realmente bom pra todo mundo, quando, na realidade, ele estava apenas difundindo seus dogmas de fé e regras de conduta moral. O mundo, segundo ele, só seria “melhor” se sua moral religiosa triunfasse e se tornasse hegemônica.

O curioso é que, no mundo contemporâneo, com todo o seu fabuloso arsenal de informação instantânea, ao alcance do dedo e do cérebro de qualquer pessoa mediana, a ignorância não apenas não se extinguiu como não parou de ganhar terreno.

Em vez do padre do mundo-melhor-pra-ele ter ficado falando sozinho, perdido na minha história pessoal, ganhou centenas de milhares de novos sacerdotes, de todas as crenças e seitas religiosas, aliados da sua fala obtusa, irada e mal-humorada, que vê o mal, isto é, a imoralidade, em todo e qualquer miserável ato de humanidade que em nós resida.

E assim como aumentou desmesuradamente o número de sacerdotes defendendo o mundo melhor deles, aumentou mais ainda o tamanho dos rebanhos de seguidores que, felizes de serem excluídos das listas do inferno, prazerosamente trocaram o prazer de viver pela doutrina moral desvairada desses padres, pastores, rabinos, mulahs e outros representantes auto-nomeados de Deus na terra.

Diante de tanta informação e tanto retrocesso, simultaneamente, fico pensando se não teria sido melhor a gente ter ficado só com o programa de rádio do ilustre presbítero que lutava para a criação – ou a manutenção – de um mundo melhor para ele, que ele acreditava firmemente ser um mundo melhor pra todo mundo.

Com toda a sua alucinação doutrinária e a sua intransigência moral ele era muito menos danoso para o progresso humano do que a galera de líderes religiosos e seus seguidores irados que está tomando de assalto o estado laico para implantar, a ferro e fogo, o “mundo melhor” deles. 


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