domingo, 13 de novembro de 2016

Quem realmente está "matando" a família

Fico indignada cada vez que vejo evangélicos fundamentalistas afirmando que o propósito das pessoas LGBT é destruir a família. Sou uma pessoa transgênera – uma representante do “T” da sigla LGBT – e tudo que fiz, ao longo de toda a minha vida, foi exatamente defender a minha família.

Casada há quarenta anos, com três filhos e quatro netos, tive que lutar – e muito – para manter a minha família diante dos ataques de religiosos enfurecidos com o fato de eu não corresponder às idiotices que dizem a respeito de pessoas LGBT.
Não apenas eu, mas praticamente a totalidade das famílias trans e homoafetivas, que permanecem juntas apesar de todas as dificuldades, ao contrário das famílias cis e héteroafetivas, que se formam e se desfazem instantaneamente, sem a menor consideração pelo destino dos filhos.

Esses canalhas evangélicos deveriam olhar as estatísticas de duração de famílias trans e homoafetivas e compara-las às estatísticas das famílias cis e héteroafetivas antes de saírem por aí dizendo suas asneiras. É raríssimo um casal trans ou homoafetivo que se separa ou que abandona os filhos, ao contrário do número assustador de casais cishéteros, que se separam e que os cônjuges, principalmente os cônjuges homens, deixam os filhos em situação de miséria e abandono.

Oficialmente, o Brasil registrou 341,1 mil divórcios em 2014, ante 130,5 mil registros em 2004. É um salto de 161,4% em dez anos ou de 1007% em relação a 1984. O dado está presente na pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2014, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015.

A realidade fora do mundo oficial é ainda mais contundente e grotesca. É absurdamente grande o
 número real de homens cishéteros que abandonam o lar, ou nem chegam a constituí-lo, deixando nos ombros das mulheres a responsabilidade de cuidarem sozinhas dos filhos que fizeram juntos. O mesmo IBGE informa que 47% das famílias brasileiras estão sendo comandadas exclusivamente por mulheres, cujos "maridos" sumiram no mundo...

O que é mais evidente nesses dados, que deveriam ser vistos como assustadores para esses supostos “defensores da família”, é que eles não contemplam nenhum casal trans ou homoafetivo. São todos dados referentes a casais cis e héteros – homem, mulher e filhos – bem ao gosto dos evangélicos fundamentalistas. A despeito disso, na maior cara de pau, eles atacam, sem clemência, a população LGBT, dizendo que é ela que representa uma enorme e constante ameaça à sobrevivência da família no mundo contemporâneo.

Esses caras evangélicos que primam, de longa data, por não terem nem “simancol” nem espelho em casa, deveriam analisar melhor as estatísticas disponíveis antes de direcionarem os seus canhões de ódio e intolerância à população LGBT. 

Quem está destruindo a família não são as pessoas trans e homoafetivas, como eles afirmam, sem nenhuma base e sem nenhum critério. Quem está destruindo a família são homens e mulheres cis e héteros. É a eles, não a nós, que deveriam dirigir as suas imprecações, não a nós, pessoas LGBT.

Fica a dica, para que parem de perder tempo e passar vergonha atirando a esmo em pessoas que não têm nada a ver com a sua fúria fundamentalista.

Um comentário:

  1. Família é quem cria, independente da raça, origem, crença religiosa ou gênero. Aqueles que falam que um casal homoafetivo não pode criar seus filhos esquecem ou fingem que muitas familias não criam seus filhos da maneira correta, ou largam para que outras pessoas cuidem delas, sem esquecer de dizer que uma parte delas entregam para adoção, vendem seus bebês ou jogam em qualquer lugar para serem encontrados por outras pessoas.

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