terça-feira, 15 de novembro de 2016

Se o amor não vem até você, vá você até o amor

Deixe de ser orgulhosa e preguiçosa, pessoa! Se o amor não vem até você, vá você até o amor. Encontre quem ou o que amar e ame, sem esperar ser amada, sem esperar nada, porque amar e só amar e mais nada.

Ah, não é não? Queria casa, apartamento e barracão, tudo no mesmo terreno, e com direito adquirido de usucapião? Ta viajando, meu anjo. Amor assim não existe não e, se existisse, ia ser um horror de ficção!

Amor é pobre e sem teto, por definição. Um nômade incansável que só se abriga no coração. Não espere nada do amor porque, tudo que ele tem para lhe dar, é exatamente o que você tem para dar ao amor.

A magia transformadora do amor só funciona quando se ama como se respira, de forma natural e espontânea, sem nenhum protocolo, artifício e, principalmente, sem nenhuma expectativa: o amor adora furar expectativas.

Assim como ninguém lembra que está respirando o tempo todo, ninguém se lembra que está amando quando está amando. De tal sorte que se você tiver que parar e se perguntar se está amando ou não, cada vez que achar que está amando, pode parar, porque aí não tem amor, não. Amor é coisa do tipo "apenas ame e pronto", sem nenhuma instrução especial de uso ou segunda-intenção.

Você talvez esteja com dificuldade de encontrar o amor porque está interessada não no amor, original de fábrica, mas em alguma forma modificada, não-amorosa, do amor. São versões-pirata, não-autorizadas pela fábrica, ainda que extremamente popularizadas no mundo de hoje. Mas a fábrica do amor, que é o coração, definitivamente não se responsabiliza por versões não-oficiais do seu principal produto e carro-chefe.

Talvez você esteja esperando o amor-que-só-se-recebe, em que a pessoa é amada sem nenhuma necessidade de amar. Em que se recebe tudo, sem dar nada em troca. No mais- do-que-narcisista mundo de hoje, essa se tornou uma versão extremamente popular do amor, por mais que já tenha sido desautorizada pela fábrica que avisa: amor não funciona em clima de egoísmo; só funciona em clima de entrega e doação incondicionais.

Ou, quem sabe, o amor-sonho-de-uma-noite-de-verão, em que o príncipe ou a princesa encantada surge do nada, numa carruagem de diamantes, prontos para dançar a grande valsa. O problema dessa outra versão desautorizada do amor é que, à meia noite, você acab dançando, sozinha, pois o príncipe e a princesa viram sapos e a carruagem vira abóbora.

Ou ainda o amor-impossível-que-tudo-vence, saído diretamente das telas do cinema para a realidade cinzenta do dia-a-dia. Com roteiro, script e direção assinados pelo Steven Spielberg, aliás, o mesmo diretor de Tubarão... Como o cinema, amor-cinema é ficção. Por sinal, de muito mau-gosto.

Há também o amor-exibição, amor-só-para-inglês-ver, amor-troféu-de-caçada para mostrar em encontro de caçadores. E tomara que não seja você a cabeça que está sendo exibida, pois fatalmente acaba sendo mais uma presa cruelmente ferida.

E quem não gosta do amor-relâmpago, o amor-meteoro, que brilha com a intensidade do sol e dura só uma fração de segundo. Quando se abre o olho, ele não está mais lá. Foi-se e nem lembrança deixou.

Existe também o amor-prático, pronto, pret-a-porter, que é pegar e sair usando, sem ter que fazer esforço nenhum. Uma invenção quase perfeita, não fosse estar completamente fora-de-moda na próxima estação.

Por essas e por outras, prefira o amor basiquinho mesmo, o legítimo, de fábrica. Aquele tal de amor verdadeiro que nem se sabe amor. Amor feito pinga boa do interior de Minas, que nem rótulo tem. Mas que inebria todo mundo que toma um simples golinho, vicia e faz querer mais, sempre mais.

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