terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Manifesto Anti-identitário do Movimento Transgente



1 – O Movimento Transgente não é um movimento identitário; não defendemos nem fazemos apologia de nenhuma identidade de gênero, genérica ou específica, seja ela oficial – homem/mulher e masculino/ feminino – seja ela transgênera: transexual, travesti, crossdresser, transformista, “não-binários”, drag-queens, etc., etc.

2 – Não reconhecemos, não praticamos, desabonamos, não nos submetemos e combatemos sistematicamente toda e qualquer forma de “fundamentalismo de gênero”, que intransigentemente insista, advogue e lute pelo nivelamento de todas as pessoas por arbitrários padrões de conduta de gênero, artificialmente criados e mantidos pela sociedade e e/ou por grupos sociais específicos.

3 – Para nós, gênero não é nenhum atributo anatômico, fisiológico ou psíquico, herdado biologicamente pelos indivíduos e, portanto, impossível de ser alterado ao longo da existência de cada pessoa, como reza a fala de fundamentalistas religiosos, apoiados por um essencialismo científico vetusto e ultrapassado.

4 – Reconhecemos que gênero não tem nenhuma base material, sendo apenas e tão somente uma engenhosa produção discursiva da sociedade, mediante a qual se estabelece o controle sociopolítico-cultural dos corpos e das mentes, e que varia intensamente de sociedade para sociedade, de época para época e de lugar para lugar.

5 – Em função do que foi dito anteriormente, é fácil deduzir que as categorias de gênero – masculino e feminino – não existem como formas espontâneas da natureza – como é o caso do sexo biológico de macho, fêmea, intersexuado e nulo – mas como modelos de conduta sociopolítica-cultural, que constituem os espelhos em que os indivíduos perscrutam, reconhecem e se apropriam da sua identidade de gênero.

6 – A identidade de gênero é uma característica própria e peculiar, pessoal e intransferível de cada indivíduo, jamais podendo ser estabelecida ou “diagnosticada” de fora para dentro, especialmente com o “auxílio” de profissionais de saúde, religiosos e/ou juristas. Por mais que alguém tenha sido classificado e rotulado pela sociedade numa determinada categoria de gênero, é sempre o próprio indivíduo que pode dizer quem ele é e, portanto, qual é a sua identidade de gênero.

7 – Ao contrário do sexo biológico, drasticamente vinculado a uma fisiologia e anatomia específicas para cada sexo (que, mesmo assim, com algum esforço, podem ser em parte alteradas), o gênero é perfeitamente mutável e reversível nessa sua mutabilidade, o que significa que, independentemente do ajustamento do corpo aos estereótipos de gênero em vigor numa dada sociedade e época, uma pessoa pode se identificar, se desidentificar e tornar a se identificar com um sem número de identidades de gênero ao longo da sua vida, o que não significa que necessariamente irá fazê-lo, podendo viver plena e confortavelmente numa mesma categoria de gênero por toda a sua existência.

8 – A menos que a "superioridade" seja fixada por disposições político-culturais ou dogmas religiosos da sociedade, o que refutamos inteiramente, não existe nenhuma categoria de gênero que possa ou deva ser reconhecida como superior a outra, o que resultaria na falsa e arbitrária hierarquia de gêneros vigente na sociedade onde, em virtude de dogmas religiosos, o homem ocupa o ápice da pirâmide social, sendo cultuado por milênios como a própria imagem do criador.

9 – As expressões das identidades de gênero, que resultam na apresentação visual e comportamental de cada indivíduo no seu dia-a-dia, devem permanecer livres e destituídas de qualquer forma de regulação e controle sociopolítico-cultural.

 
10 – Nossa luta, portanto, é para que cada pessoa seja e se expresse na sociedade como ela é, sem classificações e sem rótulos, completamente livre da opressão advinda de quaisquer produções discursivas, hierarquias ou estereótipos relacionadas à instituição social de gênero. 

Letícia Lanz, 20 de dezembro de 2016.


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