sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Quem eu sou

Nada pôde a minha essência senão mergulhar na minha existência ou desistir de existir.

Não tive escolha. Diante do imperativo da vida, ou eu me rendia ao desconhecido - e ia -, como eu fui, ou parava naquele presente que virava passado a cada instante, diante do futuro ameaçador, roendo as unhas e deixando que o acaso cuidasse de mim.

Não cuidaria nunca. Ou cuidaria da pior forma possível. De tal sorte que, ou eu me arriscava às infinitas possibilidades de mudança que a vida me apresentava ou me riscava do mapa da vida para não correr o risco de viver. Ou saltava em queda livre do alto do edifício dos meus sonhos ou viro pedra, coisa, norma, padrão, político, fóssil, museu.

Viver podia ser muito perigoso mas não viver me parecia mais perigoso ainda, além de absolutamente cruel comigo mesma. Assim, ou eu assumia o comando da minha própria jornada ou me agarrava ingenuamente em alguma tabuinha de salvação e acabava engolida pelo tsunami da vida em permanente mutação.
Por isso, há muito tempo, já não há mais nenhum traço definitivo no meu ser. Sou como um barco que, de tanto tempo na água, perdeu inteiramente as características originais de fábrica. Tudo em mim tornou-se temporário, impermanente, em permanente transformação para ser alguém que eu não tenho a menor noção de quem será, antes que eu seja.

É inútil tentar me rotular ou me entender a partir dos modelos e conceitos padronizados, estereotipados, prontos e acabados que existem por aí. Não será possível saber quem eu sou sem um permanente esforço para me conhecer aqui e agora, neste momento, neste lugar.

Não sou um prédio pronto, construído na estrita observância do “código de obras” municipal, num bairro de ruas e casas perfeitamente demarcadas. Sou uma construção clandestina dentro de uma invasão, cheia de vielas tortuosas que não vão dar em lugar nenhum, completamente fora dos mapas oficiais estabelecidos pelo poder.

Faz tanto tempo que estou na estrada que já não resta quase nada da arquitetura que eu tinha ao partir. Meus traços originais (será mesmo que os tive?) fundiram-se tão completamente aos traços acidentais somados ao longo do meu percurso que a minha essência ficou a cara da minha existência. Corra, se quiser me conhecer. Mas venha logo. Detesto ficar parado nos lugares aonde chego.

E estou permanentemente de partida. Ao me encontrar, se ainda me encontrar, preste atenção em mim para não me perder de vista assim, de repente. De uma hora para outra posso não ser mais a pessoa que você encontrou há poucos instantes.

Como não será possível guardar o meu retrato de agora para me reconhecer depois. Sou uma camaleoa, um processo descontínuo e inconstante sem nenhuma previsão do que vai dar. Embora perecível, não posso ser congelada porque, daqui a pouco, já não serei mais a pessoa que você conheceu há instantes atrás. 

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