quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A necessária e difícil resistência individual

Até onde nós, indivíduos que nos julgamos libertários, humanitários e progressistas, poderemos “resistir” a esses novos “tempos tenebrosos”, em que o poder político tornou-se mero bem de consumo no mercado, como de resto tornou-se tudo que existe no mundo, inclusive a própria pessoa humana?

É cada vez menos provável que consigamos ao menos “harmonizar” em um mesmo tom, os nossos discursos de conteúdos tão diversos e atabalhoados. Ainda quando tratam de temas idênticos, as abordagens são tão distintas e distantes uma da outra que parecem discursos totalmente divergentes e opostos. As formas "clássicas" de resistência coletiva ou foram completamente detonadas pela sua ineficácia de ação ou estão sucateadas, defasadas e desmoralizadas em suas ideologias e estratégias de ação. 

Quando surgiram, as redes sociais foram saudadas como mecanismos altamente potencializadores de um novo tipo de resistência coletiva. Paradoxalmente, estão se convertendo rapidamente em grandes obstáculos para a organização dessas mesmas resistências. Uma das piores pragas das redes sociais está sendo assassinar covardemente as novas lideranças, mal elas surgem, ou, mais covardemente ainda, impedir novas lideranças de florescer. 

A lógica é simples: se qualquer pessoa pode ser “porta-voz” de suas próprias demandas, para que dar-se o trabalho de entregar seu pleito pessoal ou grupal para ele ser intermediado e defendido por uma liderança? A crença de que “eu mesma posso fazer isso” simplesmente detonou com o sistema representativo, fortalecendo terrivelmente corporações públicas e privadas, cada vez mais desumanizadas e dessintonizadas das demandas públicas.

A outra praga das redes sociais é o que eu tenho chamado de PROTAGONISMO INTERESSEIRO, disfarçado de ATIVISMO DESINTERESSADO. São pseudo-lideranças contaminadas pelo vírus da concorrência desenfreada que se instalou na sociedade desse obtuso século XXI, em que a regra é ganhar, sempre, não importa o que ou de que forma for. É preciso aparecer e manter o foco sobre si mesma, independentemente de como ou em função de que isso é feito. E nada mais fácil para obter os famosos 15 minutos de fama que todo mundo teria no futuro, como foi profetizado por Andy Wharol, do que brilhar, de que maneira for, nas redes sociais onde, botar a bunda de fora, fazer gracinha ou falar meia dúzia de besteiras sem nexo é capaz de conquistar instantaneamente milhões de fans.

Nunca estivemos tão divididos e pulverizados em termos coletivos. A individualidade foi substituída por um mundo de sujeitos individualistas, capazes de enxergar apenas o próprio bolso e o próprio umbigo. 

Os "déspotas" modernos, oriundos do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado, nunca estiveram tão eufóricos com essa ausência total de questionamento do sistema. Ao contrário, todo mundo nunca esteve tão "a fim" de participar do sistema.

"Dividir para governar" é uma máxima tão antiga quanto a humanidade, minuciosamente trabalhada por Maquiavel no seu tratado político “O Príncipe”. Ao substituir o coletivo por um individualismo selvagem, o sistema enterrou de vez a possibilidade de organização social para a reivindicação e a resistência. Ao convencer cada pessoa que, ela própria, é uma liderança e que, portanto, pode dispensar a liderança de quem quer que seja, o despotismo moderno eliminou o sistema representativo, levando de quebra toda e qualquer possibilidade de democracia baseada na "vontade coletiva do povo".

"Você tem a capacidade de representar a si próprio" é algo tão falso e improvável quanto afirmar que alguém tem independência e autonomia para voar como um pássaro. Quem tentar isso, vai rufar no chão, como o Ícaro da mitologia. 


Mas o sistema não parou aí no convencimento das pessoas de que elas, sozinhas, são capazes, por elas mesmas, independentemente de qualquer articulação com as demais, de provocar mudanças na sociedade. Convenceu-as, também, que quaisquer “outras pessoas” que se apresentarem como lideranças devem ser vistas com total reserva pois devem estar querendo apenas "substituí-las", "aparecendo" e ganhando dinheiro fácil às suas custas.

A popularidade atual da fala "não me representa" mostra essa falência dos sistemas representativos. Apenas as "celebridades", instantaneamente fabricadas pela mídia, em nome de coisas como o "tamanho da bunda" ou o novo "estilo de barba" gozam de uma mística quase "divina" junto às massas, ao lado de evangelizadores fundamentalistas que negociam a "cobertura" de Deus e outros PROTAGONISTAS INTERESSEIROS que, por falar exatamente as coisas que suas audiências idiotizadas querem ouvir se transformaram em grandes FENÔMENOS MIDIÁTICOS. 

Vivemos a era da “banalidade da informação”, parafraseando o magnífico conceito de “banalidade do mal”, da filósofa Hannah Arendt. Assim como o “mal” se tornou completamente banal no nosso tempo, em grande parte apoiado pela própria universalização e vulgarização da informação, agora é a própria informação que ficou completamente banalizada. Não adianta saber se nada se pode fazer, assim como "saber" não significa absolutamente "fazer alguma coisa". Chegamos ao ponto de saber tudo, sem poder fazer nada.

Esse impasse histórico entre consciência e ação está levando a maioria à uma confortável e confortadora alienação política; alguns, até à loucura. As poucas pessoas que conseguirem se manter de pé, orgulhosos da sua estirpe humana, e conscientes da sua missão individual nesse mundo, terão que lutar sozinhas, sem se deixar abater com coisas como frustração, falta de recompensa, falta de apoio, dificuldade de caminhar, incompreensão, desqualificação, falta de “auditório” e outras formas sutis ou ferrenhas de oposição.

O objetivo é conseguirmos atravessar essa nova idade média, e chegar em algum outro lugar que não seja esse tenebroso "aqui e agora" em que nos encontramos no momento.

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