terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Diversidade não é "adversidade" e discurso populista não enche a barriga de ninguém

Eu vivo dizendo que “diversidade” não é “adversidade”. Entretanto, no Brasil, encontros para tratar sobre a “diversidade” tornaram-se um rosário de tediosas narrativas sobre as maldades impostas pela sociedade a cada uma das minorias que fazem parte do que se convencionou chamar de “diversidade humana”. Como num campeonato, cada minoria tenta mostrar-se em condição sociopolítico-econômica ainda mais adversa do que a outra a fim de justificar, em seu favor, a necessidade de políticas públicas específicas e minguados recursos orçamentários para implementá-las. O encontro acaba virando um festival de “pires na mão”, em que o mais “fodido” reivindica ter mais direito sobre os menos, como se fosse possível adiar o combate dos efeitos da “fodeção” nos segmentos que não conseguem se mostrar suficientemente lesados nos seus direitos e necessidades básicas.

Essa extrema fragmentação e disputa, aberta e velada, entre as “adversidades” que compõem a chamada “diversidade”, faz a festa tanto dos governos quanto da sociedade de maioria cisgênera, branca, heterossexual, cristã, que tem seus direitos atendidos e julga ter “corpos perfeitos”. Quando menos pessoas houver reivindicando coisas, menos o estado e a sociedade “majoritária” têm que se mobilizar para atender suas reivindicações ou, dito de outra forma, as minorias não contam até que sejam suficientemente representativas para serem contadas...

Por outro lado, a necessidade de mostrar e manter a existência de “zonas de sofrimento” próprias e específicas, faz surgir lideranças populistas dentro desses pequenos conglomerados de infelicidades humanas, cujo enfoque principal não é solucionar os problema de uma minoria, mas adiar a solução deles o máximo possível, divulgando (e prometendo) soluções absurdas e fantásticas, que jamais poderão ser implementadas, mas que fazem os mais incautos membros de uma minoria se sentirem defendidos e “representados”, tal como o Trump faz hoje nos EUA.

Lideranças populistas reclamam, por exemplo, que as empresas só oferecem aos seus sofridos liderados “mixados empregos” para preencher funções elementares do seu quadro de pessoal quando deveriam lhes oferecer “planos de carreira” e “vagas de alto nível”. O problema é que jamais abordam a falta de formação profissional crônica dos seus “representados”, motivo principal de não poderem sequer concorrer a uma vaga que exija um perfil pessoal mais requintado. Mas essas lideranças, a fim de estimularem o “coitadismo de mim” tão próprio da das “minorias oprimidas” preferem atribuir o não oferecimento de vagas de nível mais elevado a coisas vagas e absurdas como discriminação e preconceito.

Idiota é a empresa que, ao buscar alguém para preencher um cargo de mais alto nível, discrimine e exclua do processo de seleção uma pessoa muito bem colocada nos exames exclusivamente por causa da cor da sua pele, da sua orientação sexual ou identidade e expressão de gênero. Coisas assim acontecem, sim. Mas, como eu disse, é mais fruto da burrice de um outro empresário do que de formas altamente arraigadas de preconceito e discriminação. Novamente, o Trump ganhou na disputa com uma mulher. Mas diante do poder da sua “metralhadora populista”, pouca gente terá coragem de dizer que ele venceu porque era homem e que, portanto, existe muita discriminação contra a mulher.

Definitivamente, diversidade não é um somatório de “adversidades”, todas reduzidas e fragmentadas ao extremo (dividir para governar...), lutando, inclusive entre si, por “um lugar ao sol” na sociedade. Lugar esse que estará cada vez mais adiado na medida em que pessoas que vivem em condições adversas, em vez de se unirem para reivindicarem, se tornarem “adversárias”.

Tentar demonstrar que a minha adversidade é mais adversa do que a sua faz de mim um adversário seu, não um aliado na sua luta pelo reconhecimento da sua própria adversidade.

Pensem nisso antes de aplaudirem prontamente o discurso populista-nonsense de lideranças e formadores de opinião que tentam, antes de mais nada, fortalecerem-se a si próprios, mediante um protagonismo interesseiro disfarçado de ativismo desinteressado. Afinal de contas, a força de um líder vem do acatamento – ou não – da sua forma de liderança pelos liderados. De tal sorte que todo mundo acaba tendo apenas o líder que merece.

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