domingo, 8 de janeiro de 2017

Um sonho de cinderela

Não sejamos hipócritas: resolver as coisas com dinheiro no bolso é infinitamente mais fácil do que sem ele. Dinheiro facilita a solução de qualquer problema, assim como a realização de qualquer sonho. A falta dele, ao contrário, torna tudo muito mais difícil, para não dizer impossível. Como diz o sábio cantor-filósofo-brega Falcão, “dinheiro não é tudo, mas é 100%”.

O Brasil é um país de gente pobre. Muito pouca gente é rica por aqui. Alguns por trabalho e herança familiar, alguns por pura e simples esperteza em drenar os cofres públicos para benefício próprio, como faz a esmagadora maioria dos políticos dos nossos quase quarenta partidos e uma boa parcela do nosso empresariado vinculado às atividades estatais.

A maioria da população trabalha de dia para comer de noite, e se parar de trabalhar está literalmente fodida, pois o nosso guarda-chuva de proteção social, que já era muito pequeno pra tanta gente, está literalmente furado.

As oportunidades de emprego e empreendedorismo, por sua vez, são escassíssimas, limitadíssimas, cada vez mais difíceis de ser encontradas. O emprego parou de existir já faz tempo e a maioria dos negócios, arriscadíssimos, submetidos a uma carga fenomenal de burocracia e exigências grotescas e irresponsáveis dos governos, são obrigados a fechar com menos de um ano de funcionamento.

Apesar disso tudo, não se vê nenhuma perspectiva de mudança no horizonte. Os governos estão cada vez mais famintos por recursos de quem não tem e que, muito pelo contrário, deveria ser beneficiário da própria ação governamental. O povo está cada vez mais alienado de decidir o seu próprio destino, manipulado por “doutrinas redentoras”, baseadas em promessas teológicas que enriquecem cada vez mais religiosos inescrupulosos, deixados à solta, e completamente livres de impostos, para praticar seus estelionatos em nome de Deus.

Embora a duríssima realidade que enfrenta diariamente, a população brasileira continua a viver de sonho, e a acreditar em papai noel, na sua maioria. Talvez a dureza do dia-a-dia faça nossa gente se refugiar – psíquica e politicamente – em um mundo mágico de Cinderela, em que uma providencial “fada madrinha” faz abóboras virarem carruagens, ratos virarem cocheiros e roupas esfarrapadas virarem luxuosos vestidos de baile. Sem falar no sapatinho de cristal, claro. Não é a toa que o carnaval é um componente fortíssimo do nosso “inconsciente coletivo”. O problema é que o mundo de cinderela, tal como o carnaval, só dura até meia-noite. E quando as pessoas acordam para a realidade, tudo que encontram são as mesmas "abóboras" de sempre.

Quem vive de sonho, morre de fome. Essa frase eu vi escrita num parachoque de caminhão, no tempo em que os caminhões ostentavam frases riquíssimas e inteligentíssimas em seus parachoques traseiros (hoje só levam frases do tipo “Deus é fiel” e “propriedade de Jesus”...).

Quando eu era menina, diziam que o Brasil seria a pátria do futuro. Pois o futuro chegou, passou e o Brasil continua lá, estacionado naquele mesmo passado burocrático e pretensioso, herdado de Portugal. Pois o próprio Portugal, aparentemente muito mais conservador e reacionário do que nós, já se modificou muuuuuitas vezes e nós continuamos na mesma missa de sempre.

Falta-nos vontade de mudar que não seja mudar de país, como a maioria sonha em fazer hoje em dia. Gente que vai ser cidadão de 3ª classe lá fora, em lugares cada vez mais xenofóbicos e avessos à presença de estrangeiros, particularmente estrangeiros pobres, já que estrangeiros ricos são bem vindos em qualquer lugar...

Precisamos mudar o nosso país. Precisamos arrumar um jeito inteligente de destituir essa corja de políticos, igrejeiros e maus empresários que se instalaram no poder e fazer a nação do nosso sonho. Não um sonho de Cinderela, em que tudo vira abóbora à meia noite. Mas um sonho de quem é capaz de trabalhar, de sol a sol, como, aliás, já fazemos, para transformar a realidade em que vivemos - e não para sofrer passivamente os efeitos dessa realidade.

Eu já estou nessa luta, e você é muito bem-vinda.

2 comentários:

  1. Leticia valeu o comentário - pura realidade...que falta faz uma loteria...

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  2. De fato, essa historinha de que sem dinheiro a pessoa é muito mais feliz do que quem é milionário, sem comentários ne... texto absurdamente lúcido. E vamos à luta, todos, do jeito que der!

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