domingo, 1 de janeiro de 2017

Vida simples é só viver com simplicidade

Se entre os seus propósitos para o ano-novo tem algum parecido com "viver uma vida mais simples", quero lhe dizer que você tem todo o meu apoio. Nunca foi tão necessário descomplicar a nossa vida, eliminando, sem dó nem piedade, tudo que está sobrando na pesadíssima rotina e na agenda sobrecarregada que todo mundo passou a ter hoje em dia.

Mas preciso alertar que viver uma vida simples não é, de maneira nenhuma, trocar uma lista de tensões por outra, tão tensa e conflituosa quanto o primeira, só que cuidadosamente disfarçada de "conquista de uma vida mais simples"... 

Não está nada fácil levar uma vida simples, minha comadre. Complicaram a vida simples a tal ponto que se tornou extremamente complexo viver com simplicidade. Hoje em dia, para viver uma vida simples, é necessário fazer até curso de formação, com vários estágios de aperfeiçoamento e certificação dos participantes: noviço, expert de nível um, dois, dez, mestre e doutor em vida simples.

É uma verdadeira enciclopédia a lista de coisas relacionadas a viver uma vida simples. Entrando em praticamente todos os aspectos, momentos e particularidades da vida individual e coletiva de cada pessoa, a vida simples tornou-se uma verdadeira ciência. Mais do que uma ciência,virou uma religião, com um exército enorme de seguidores que se estressam diariamente para viver de modo simples, das formas mais complicadas possíveis.

Começa pela comida que você come, que tem que ser absolutamente “natural”, composta apenas por alimentos orgânicos, cultivados sem nenhum vestígio de fertilizantes químicos e ou agrotóxicos. Gordura e proteína animal nem pensar.

A vida simples passa por sua roupa e calçados, que devem ser de fibras naturais, sem qualquer material sintético ou de origem animal. O mesmo vale para o colchão, o lençol, o travesseiro, a colcha, a toalha de banho e o pano de prato da cozinha onde, utensílios de plástico, nem por sonho.

Uma cozinha simples que fique numa casa simples, totalmente auto-sustentada, construída de forma “natural” e espontânea, com materiais naturais ou reciclados (para preservar ao máximo a natureza e inteiramente “movida” por energia solar. Ah, sim, distante dos centros urbanos entupidos de pessoas e poluídos até o pescoço. E condução, tire da cabeça usar carro próprio ou transporte coletivo: tudo tem que ser feito no lombo de uma bike, inclusive as compras do mercado, sem as terríveis sacolas plásticas poluidoras do meio ambiente. Na casa, naturalmente, você deverá cuidar do seu próprio lixo, além de plantar sua própria horta.

Para fazer todas essas coisas, você precisará naturalmente de renda, que não é aquela maravilhosa renda de bilro das rendeiras de antigamente, da Lagoa da Conceição, em Floripa, que há muito tempo só existem na lembrança de quem as conheceu. É renda mesmo, cacau, dindim, money, tutu, aqué. Donde você vai precisa de em-pe-re-go, se-re-vi-ço, ta-ra-ba-io, como diz o meu amigo Takashi.

Mas não pode ser qualquer ta-ra-ba-io não. A vida simples não recomenda que você frequente ambientes de trabalho “carregados” de energias negativas, locais em que predominam apenas competição, ciúme e inveja e onde não se deve nem se pode confiar em ninguém. Ah, sim, e é claro, você tem que amar fazer todas as suas tarefas, por mais aborrecidas e cacetes que sejam.

Ponto importante da vida simples é que álcool, cigarros e drogas, legais e ilegais, inclusive o prosaico e perigosíssimo café, estão completamente banidas do pedaço. E pra terminar, vida simples também implica em dormir com as galinhas e acordar com os galos: balada, farra e equivalente nunca mais!

Diante de tantos requisitos – e eu só listei alguns, entre os principais – fico pensando na ingenuidade da minha vó, achando que estava levando uma vida simples lá, no interiorzão de Minas. Cozinhava com banha, comia carne de porco, linguiça e torresmo todo santo dia, e tinha sempre um bule de café fresquinho no fogão de lenha que nunca se apagava. O cigarro de palha saía da própria plantação de fumo da fazenda, assim como a pinga, puríssima, que era do povo beber rezando, de tão boa.

Minha vó, sim, era "naturalista": comia e bebia de tudo naturalmente. Para ela, vida simples, era só viver com simplicidade. E com simplicidade ela viveu até os 96 anos, até a noite em que se deitou para não se levantar mais, pelo menos não nesse mundo. Morreu como eu acho que deve ser uma boa morte: simples e descomplicada.

Mas, com certeza, morrer também já deixou de ser simples assim, há muito tempo. Na nossa nova e complexa vida simples, até o ato de morrer já perdeu toda a sua simplicidade.


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