segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Gosto da Vida


Tudo em mim é rascunho
Tudo é provisório
Não há nada definitivo no meu ser.

Tudo é canteiro de obras,
oficina, laboratório,
e tudo ainda está por fazer.

Vivo de buscar o que está sempre mais além,
o que ainda nem existe para ser buscado
o que só é descoberto, ou fabricado,
quando parto em seu encalço.

Nada em mim é tranquilidade ou repouso.
Nada é fixo ou imutável.
Tudo balança, confunde, embaralha e agita
mesmo em completa ausência de vento.

Minha essência? Que essência?
Eu só existo enquanto estou existindo.
E nunca sobrevivo o tempo suficiente
nem para contar quem eu fui!

Opção? Mas que outra opção pode ter quem optou em ser?
Ou abraço o desconhecido ou me torno estátua de mim mesmo,
Ou me converto em realidade mutante ou viro fantasma de alguém que nem existe.
Ou me arrisco a viver ou me risco definitivamente do mapa da vida.

Ou atravesso o abismo do meu medo, sem redes de proteção
ou me atiro em queda livre do alto do edifício dos meus sonhos,
sem a menor chance de continuar emocionalmente viva depois do tombo.
Ou corro louca desorientada atrás meu desejo
ou viro pedra, político, regra, padrão,
fóssil, santa, rótulo, relíquia, museu, identidade.

Viver é muito mais perigoso do que me disseram
e, não viver, infinitamente mais doloroso do que ninguém jamais me disse.

Talvez a omissão tenha sido proposital:
para que eu viesse a descobrir por mim mesma.
Talvez para eu continuar iludida como todas,
talvez por não saberem mesmo, o que é mais provável,
porque quase ninguém sabe o gosto que a vida tem.

Todos se acham vivos sem perceber que já morreram
e muitos ainda ficam esperando eternamente por uma ressurreição
sem saber que não há diferença nenhuma entre ser e não ser;
que ser é ser e não ser, ao mesmo tempo.

Que ninguém perca tempo em me contestar com suas raivas vivas e doutrinas mortas.
Não estou certa nem errada: - estou viva,
e não tenho outra escolha senão ser eu mesma:
rude e suave,
ousada e lerda,
confusamente clara e incisiva
livre das tabuinhas de salvação e das garantias ingênuas da vida moderna e da vida eterna
longe da proteção de estruturas arcaicas e sinistras que ainda governam a humanidade
vivendo a céu aberto, de peito aberto, aberta a todas as intempéries,
completamente à descoberta,
sujeita ao permanente tsunami da minha própria transformação.

Faz tanto tempo que estou na estrada
que já não resta quase nada
da arquitetura que eu tinha ao partir.

Meus traços originais (mas será mesmo que os tive?)
fundiram-se tão completamente
aos traços que fui somando ao longo do caminho
que não se percebe mais nenhuma distinção
entre o meu projeto de vida e a minha própria existência

Se quiser falar comigo, venha, mas venha logo.
Gosto muito pouco de ficar parada nos lugares aonde eu chego
e estou permanentemente de partida para algum outro lugar.

Se me encontrar, caso eu ainda me encontre por aqui,
fique atento para não me perder de vista.
De uma hora para outra posso não ser mais
a pessoa que você viu há instantes atrás.

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