sábado, 25 de fevereiro de 2017

Roupa não tem sexo, não tem gênero e nem orientação sexual. Será?

Desde meados do século passado, a mulher concedeu-se o direito de se “travestir” o quanto quiser, na hora que quiser, no lugar que quiser, do jeito que quiser. Ou seja, a mulher “autorizou-se” a usar roupas, calçados e adereços socialmente estabelecidos como “masculinos”, algo que lhe era totalmente interditado. E desde então, tem usado calças, camisas, paletós, botas, meias e até cuecas como bem entende, sem o perigo de, por causa disso, ser rotulada pejorativamente como “travesti” ou excluída pela sociedade como uma pessoa tola, vulgar, doente e “moralmente decaída”.

O que garante à mulher o direito de usar as roupas que bem entender? Em primeiro lugar, a própria constituição país, que assegura a toda e qualquer cidadã o direito à plena e total Liberdade de Expressão. Creio ser desnecessário lembrar que o vestuário é um dos principais veículos de expressão de qualquer pessoa.

Na contramão da incrível liberdade de expressão conquistada pela mulher no mundo contemporâneo, o homem parece cultivar um temor cada vez maior de se expressar livremente como indivíduo. Seja qual for o veículo de autoexpressão considerado - fala, gesto, escrita, dança, vestuário, etc - o homem continua cada vez mais fechado, duro e bloqueado em utilizá-lo para manifestar a sua própria identidade. No campo do vestuário, então, o homem, enquanto instituição social, simplesmente não se autoriza, em hipótese nenhuma, a usar roupas, calçados e quaisquer adereços que lembrem, ainda que remotamente, alguma peça ou característica do vestuário considerado feminino.

Padecendo de uma sexualidade incrivelmente mal resolvida, o homem ainda é refém de um fetichismo infantil, onde as roupas e os adereços são considerados insígnias de virilidade. É isso que leva o homem a se sentir menos homem e a parecer ridiculamente inadequado se usar saia, sapatos de salto alto, maquiagem ou qualquer outro item que tenha alguma relação com a indumentária feminina.

Preso a esse comportamento pré-adolescente, o homem não se autoriza a vestir uma roupa pelo que a roupa pode significar para a sua autoexpressão como indivíduo, não se autoriza a usar a roupa com a qual se sente mais identificado, mais confortável, mais “fashion”, mais bonito, mais elegante e mais satisfeito dentro dela. É preciso que a roupa seja “máscula”, o que equivale dizer “ela nem de longe pode lembrar o vestuário feminino”. Em outras palavras, adotando um enfoque radicalmente oposto ao da mulher, o homem trata a roupa como “instrumento de normalização, controle, contenção e repressão de conduta”, em vez de considera-la como um mero veículo de autoexpressão.

O homem não se autoriza a usar livremente o vestuário que melhor lhe convier porque não considera a escolha da roupa uma prática elementar do direito à livre expressão que cada indivíduo tem garantido na própria Constituição.

Confusamente perdido dentro dos seus conflitos de identidade, o homem pensa que a roupa mais do que “denunciaria” a sua categoria de gênero e a sua orientação sexual: ela é a própria categoria de gênero e a própria orientação sexual do indivíduo. “Sou macho e hétero” não porque eu seja macho e hetero mas “por causa das roupas masculinas que eu uso”, mesmo que no meu íntimo eu saiba claramente que a minha orientação é homossexual.

Da mesma forma, diante dos outros homens (e de mim mesmo!) sempre serei homossexual (ou efeminado, bicha, boiola, travesti, etc) se usar roupas não masculinas (leia-se: femininas), mesmo que no meu íntimo eu saiba claramente da minha orientação heterossexual.

Já era mais do que tempo, em pleno século XXI, do homem ter amadurecido sexualmente, abandonando essas noções estúpidas de que roupas e calçados têm sexo, gênero e orientação sexual.

O pior é que está ficando cada vez mais difícil encontrar roupas e calçados que sejam essencialmente masculinos. Com a sua sutil e elegantérrima falta de cerimônia em ocupar espaços e promover a revolução feminina, a mulher tem se apropriado indiscriminadamente de qualquer roupa, calçado ou adereço até então considerado como “exclusivamente masculino”. Na mesma velocidade com que elas se apropriam desses itens, os homens os descartam, passando a considerá-los como “peças intocáveis”, na medida em que o seu uso, pelas mulheres, retira-lhes o caráter fetichista de representações da masculinidade.

Foi, por exemplo, o que ocorreu com as botas de montaria e os coturnos militares, itens indiscutivelmente masculinos até que a moda feminina se apropriou deles sem nenhum constrangimento. Tanto que, hoje em dia, tornou-se raro ver-se uma bota de montaria ou um coturno numa vitrine de calçados masculinos e muito menos nos pés de homens. Desde que elas migraram em massa para as vitrines e para os pés femininos, deixaram de representar masculinidade e, portanto, usá-las “significa” não ser homem.

Considerando o ritmo avassalador de apropriação do vestuário masculino pelas mulheres, em breve os homens terão que andar nus, a fim de não colocar em risco a sua masculinidade...

A Liberdade de Expressão jamais vinculou ou restringiu o uso de determinado tipo de roupa a esse ou àquele gênero ou orientação sexual específicos. Qualquer pessoa é livre para usar a roupa que bem entender, a menos que haja algum forte impeditivo de segurança que limite e estabeleça o tipo de roupa que ela pode ou não usar. Determinadas roupas e calçados, por exemplo, são absolutamente inapropriados para certos tipos de trabalho em laboratórios e linhas de produção, colocando a pessoa e o próprio produto em risco de acidente e contaminação.

Como parte fundamental do exercício da sua Liberdade de Expressão, as mulheres adotaram o uso indiscriminado de todos os tipos de roupas, calçados e adereços. Se as vitrines masculinas estão cada vez mais restritas a cores escuras e cortes sóbrios e sombrios foi porque isso é o que restou ainda intocado por essa “invasão” feminina.

A mulher contemporânea pratica “travestismo” em regime de tempo integral. Usa, sem nenhum tipo de restrição, qualquer item do vestuário considerado masculino que lhe pareça atraente, em qualquer tipo de combinação de peças que a agrade. Seria totalmente impensável, nessa altura do campeonato, argumentar que as mulheres não devessem mais usar calças – um item de vestuário que era tipicamente masculino – a fim de não perderem a “feminilidade”. A maioria das mulheres riria abertamente diante de uma proposta descabida como essa.

Entretanto, a mesma maioria de mulheres ainda torce a cara diante de homens usando saias. E por culpa de quem? Dos próprios homens, já que são eles - e não elas - que mantêm aquela estúpida vinculação identitária-sexista entre roupa, gênero e orientação sexual. São os próprios homens que ensinam as mulheres a ser machistas, na medida em que continuam tratando a sua própria sexualidade dentro de um precário fetichismo infantil.

Mas é claro que as mulheres também têm culpa pela repressão à Liberdade de Expressão do homem através do vestuário. São elas que vestem as crianças, quando elas ainda não estão contaminadas pelo vírus do machismo. Portanto, são elas que mantêm a regra “preto, azul, marrom e cinza para meninos” e todas as cores do arco-íris, inclusive essas últimas se elas assim desejarem, para as meninas. São elas que atuam como as principais mentoras do comportamento dos meninos, ensinando a eles o que é “masculino” e o que não é. São elas que lhes dizem claramente que saia é para meninas e calças, para meninos e meninas.

Esse comportamento da mulher em relação ao comportamento do homem talvez exija um esforço dobrado do homem em termos de mudança. Talvez não lhe baste mais mudar a si próprio como homem, deixando de ser vítima de uma sexualidade fetichista e infantil, onde roupa pode traduzir gênero, orientação e até desempenho sexual. A mulher precisará aprender a ver sua masculinidade fora da máscara de masculinidade que ele próprio se impôs. Enormes desafios de libertação para um homem cada vez mais autoenclausurado numa falta crônica de liberdade de expressão.

Um comentário:

  1. Letícia,

    Acho que foi um pouco mais de um século de muita luta/desconstrução por parte das mulheres (seja através do feminismo ou através da moda) para que as mulheres alcançassem esta relativa liberdade (pois eu que sou transmasculino nãobinárie, sinto os efeitos do meu "excesso" de masculinização (existe também um limite de até onde podemos ir, digamos assim, para que não sejamos lides como lésbicas, por exemplo). A questão da inserção no mercado de trabalho também contribiu. uma vez que as mulheres performaram para se verem respeitadas em determinados espaços sociais/públicos, coisa que as não feministas adoram criticar e polemizar.

    De qualquer forma, nada mudará sem esforço. Homens cisgêneros, precisam encontrar brechas e produzirem linhas de fuga para se expressarem em sua totalidade, sem que precisem passar a se autoidentificar como trans. Roupas definitivavemente não nos definem, mas são signos de libertação ou de limitação.

    boa reflexão! :*
    abs,
    Mar Lunx

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