quarta-feira, 12 de abril de 2017

O direito a um nome civil compatível com sua identidade de gênero

Que não me perdoem as defensoras do "valor" do nome social, já que não vão me perdoar mesmo, mas essa coisa considerada por muitas como avanço e conquista da população transgênera do país não passa de uma grande embromação.

Talvez essas apologistas nunca tenham passado pelo constrangimento de atravessar um salão de espera enorme de um hospital, apinhado de gente aguardando a vez de ser chamada, tendo que responder ao nome que está no meu registro civil: Geraldo Eustáquio de Souza.


Porque atendentes de hospital não só cagam e andam pra nome social como não se pode sequer repreendê-las, uma vez que ninguém tem a obrigação de seguir um dispositivo que não passa de um típico jeitinho brasileiro.


Eu cago e ando pra nome - civil ou social - mas acho desaforo você ter solicitado ao atendimento ser chamada pelo seu nome social, mais para não "causar" no ambiente do que para atender o meu ego e, na hora agá, ser chamada pelo nome civil.


Ela chamou uma vez e como eu estava muito lá no fundo, demorei a ir. Então ela chamou duas, três, até que eu me apresentasse.
- Você não chamou Geraldo Eustáquio? Sou eu.
- Ah, É a senhora?
- É. E vamos parar de hipocrisia. Por favor, me chame de Geraldo. Quero ser tratada na forma masculina.

E todas as vezes, durante o atendimento, que ela deslizava para o feminino eu a corrigia: êpa! Eu pedi para ser tratada na forma masculina.


Essa coisa toda é uma bosta, se querem saber. E eu sei que vai ter um monte de gente dizendo "por que então você não entra com um processo para correção do seu nome civil?". Simplesmente porque eu não cometi crime nem deslize nenhum para submeter a minha vida à apreciação da Justiça. Se alguém cometeu crime nessa história foi a sociedade, me desrespeitando como pessoa desde que eu nasci, unicamente por eu não ter me identificado com o modelo masculino que eu deveria adotar cegamente pelo fato de ter nascido macho.


Mas isso nem vem ao caso. A questão é que se eu entrasse com o processo e um juizeco transfóbico resolvesse indeferir o meu pedido de mudança de nome civil eu ia ficar puta demais, correndo o risco até de ser presa, porque eu ia rodar a baiana mesmo.


O que eu quero - e que nós precisamos - é de uma simples lei de identidade de gênero, tal como existe em muitos países vizinhos a nós, como Argentina, Uruguai e até na Bolívia, considerado em geral como um país mais atrasado e muito menos desenvolvido do que o nosso.


Só que batalhar por uma lei, no terreno político completamento minado em que vivemos é absolutamente foda. E não temos nem lideranças nem representações capazes de mobilizar todas as nossas bases para essa luta sem a qual é idiotice sair por aí "exigindo" respeito, como muitas fazem, na mais completa alienação do mundo.


Enquanto a lei não vier, seremos párias sociais que nem direito a nome temos. E o que nos resta, é levar a coisa com ironia, na piada, que é uma forma muito ineficiente de lidar com a realidade, eu sei.


E por falar em piada, estou lembrando daquela do sujeito que entrou com processo para retificação do nome civil.
- Então o senhor está demandando mudar o seu nome civil, certo? Disse o Juiz.
- Sim senhor. Estou cansado de ser motivo de gozação das pessoas...
- E como é que o senhor se chama mesmo?
- João Bosta.
- Ah, perfeito. Esse é um caso muito sério. Vamos corrigir isso de uma vez. Como o senhor deseja passar a ser chamado?
- João Merda. Pode ser?

Nenhum comentário:

Postar um comentário