sábado, 16 de dezembro de 2017

Pessoas que não se aceitam e profissionais que querem "cura-las" de serem quem são


Uma das formas mais devastadoras de intolerância, capaz de minar e de destruir pouco a pouco a autoestima e a saúde mental de uma pessoa, é a chamada auto-intolerância, em que a pessoa se rejeita a si própria, em razão de algum comportamento, atributo, desejo ou traço de personalidade que ela se recusa compreender e aceitar em si mesma.

É o caso típico de pessoas homossexuais que não aceitam o fato de desejar erótica e afetivamente indivíduos do mesmo sexo. Saber-se homossexual produz nessas pessoas um sentimento de horror e repúdio em relação a si próprias, a quem consideram como pessoas doentes e monstruosas, necessitando de cura. Para elas, a cura seria conseguirem ser pessoas heterossexuais “normais”, livres do abominável desejo de se relacionarem com indivíduos do próprios sexo.

É claro que esse comportamento de profunda e intensa intolerância por si próprias não nasce com essas pessoas mas é incutidas nelas através de uma (des)educação que lhes ensina a sentir vergonha e culpa pelo seu modo de ser. A doença, aqui, é da sociedade – não dos indivíduos. Mas as pessoas que sofrem processos de auto-intolerância não são capazes de perceber isso. Elas é que são doentes e elas é que devem buscar a cura para sua doença.

Só que não podemos falar de doença quando falamos de homossexualidade. Há muito tempo a medicina já reconheceu que não existe nenhuma patologia no fato de alguém se sentir a
traído física ou emocionalmente por pessoas do mesmo sexo. Para a ciência, esse é um comportamento comum e perfeitamente normal da nossa espécie, não havendo que se falar em doença ou em cura.

O problema é que tanto há pessoas que não conseguem se livrar do peso da culpa de serem como elas são, assim como há profissionais embusteiros e vigaristas ao ponto de “prometerem” ajudar essas pessoas, desesperadas com o seu jeito de ser, a mudar a sua orientação sexual.

Daí a proibição, tanto dos conselhos de medicina quanto dos conselhos de psicologia, de seus associados fornecerem tratamento para a “cura” da homossexualidade que, por não ser doença, não pode ser objeto de cura. Muito ao contrário, caberia aos profissionais de saúde não fornecer “cura” para homossexualidade, mas ajudar as pessoas homossexuais a fortalecerem o seu ego e a sua auto-estima a fim de darem conta de conviver com esse traço especial da sua constituição como sujeito.

Como eu disse antes, profissionais embusteiros e vigaristas infelizmente é o que não falta, assim como pessoas sofrendo com a ideia de que não são adequadas por causa da sua orientação homossexual, algo que deveriam ser capazes de ver como perfeitamente normal em suas vidas mas que não conseguem, por força da opressão da própria sociedade.

Acatando o pedido, inconveniente e extemporâneo, de um grupo de profissionais do tipo acima para serem liberados pelos seus conselhos para “tratarem” a orientação homossexual de seus pacientes, a Justiça brasileira está sendo conivente com o embuste e a vigarice, além de estar contribuindo para infernizar ainda mais a vida de quem já vive num inferno. Quem sabe ajudando a pessoa até mesmo a implementar a ideia de suicídio, companheira inseparável de pessoas que sofrem por serem o que são, numa sociedade que lhes exige ser alguém que elas nunca foram e nunca serão.

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