domingo, 4 de setembro de 2016

Tempo não só não cura como pode piorar muito as coisas

No meio de alguma tempestade existencial, tem sempre alguém para vir nos dizer, com ar de eterna sabedoria: “basta dar tempo ao tempo que tudo se ajeita”. Ainda que essa recomendação possa ser alívio e esperança em tempos difíceis, o tempo, sozinho e por si mesmo, definitivamente não opera nenhum milagre. Muito menos esse, de recolocar as coisas no lugar.

Não há nenhuma evidência que as nossas perdas e traumas possam ser naturalmente curadas com o tempo. Pelo contrário, tudo indica que as coisas piorem e muito, se nada for feito para digerir, pouco a pouco, o que a gente não deu conta de digerir de uma vez só e, portanto, para defesa do nosso próprio aparelho psíquico, tivemos que recalcar.

Com o tempo, as privações, frustrações e perdas não elaboradas podem se tornar e se tornam feridas incuráveis, operando silenciosa e decisivamente para dificultar nossas vidas, a partir da sua condição de traumas reprimidos e recalcados.

Assim, com o tempo, a dor e o sofrimento tendem a aumentar - não a diminuir. A pessoa não esquece: se acomoda. Não são as coisas que se ajeitam, mas ela que se ajeita às coisas, da melhor maneira que consegue. E quando nada é feito para elaborar o luto pela perda, o melhor que uma pessoa consegue é quase sempre algo muito ruim do ponto de vista psíquico.    

Como eu costumo dizer aos meus analisandos, a fumaça tóxica que hoje nos engasga, está sempre vindo de alguma “fogueirinha” lá de trás que, ao seu tempo, a gente não deu conta de apagar. Neurose é sempre “neurose atualizada”, ou seja, traumas do passado, não resolvidos, acrescidos de juros e correção monetária.

Essa é, sem dúvida alguma, uma das principais funções da análise: ajudar-nos a extinguir as fogueirinhas do passado, fontes geradoras dessas incômodas fumaças que nos impedem de respirar livremente no presente, mediante os três preceitos básicos da psicanálise, estabelecidos por Freud: recordar, repetir e elaborar.

Enfim, para que o tempo opere ao nosso favor, e não contra nós, é preciso muito mais do que essa preguiçosa, passiva e cansativa atividade de deixar o tempo passar. Como uma arqueóloga de mim mesma, é preciso que eu me debruce sobre os fragmentos do passado que o inconsciente permanentemente libera no presente, em doses homeopáticas, e que me fazem continuar a sofrer, cada vez mais sem respiração, completamente dominada pela sua fumaça altamente tóxica.

Só através dessa “atividade reflexiva”, o tempo passa a ter caráter curativo, em vez de ser apenas um poderoso fator de patologização da vida psíquica. Deixado a si mesmo, sem nenhuma humildade para o aprendizado, o tempo não só não cura como vai piorar muito as coisas.

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