domingo, 9 de outubro de 2016

Transgeneridade revolucionária é infinitamente mais do que “fetichismo de gênero”

Jeanine Anderson | CHS Capitol Hill Seattle
Em um mundo fundamentalmente patriarcal, machista e cisgênero, um macho de nascimento que insista em se identificar como mulher ou uma fêmea de nascimento, que insista em se identificar como homem, representam uma clara subversão e enfrentamento da ordem vigente, certo?

Errado. A maioria dos machos biológicos que se identificam como mulher ou das fêmeas biológicas se identificam como machos, não tem nada de revolucionário, sendo quase todos “reacionários de carteirinha”, imbuídos do mais puro e autêntico desejo de serem apenas e tão somente incluídos na mesma ordem social binária que ostensivamente os exclui e à qual desafiam, adotando condutas francamente transgressivas das normas de gênero em vigor.

É difícil de entender como pessoas que “peitam” o cis-tema e por isso sofrem graves punições por ferirem as normas binárias de gênero, no fundo estão querendo, apenas e tão somente, serem incluídas e aceitas por esse mesmo cis-tema. Mas, infelizmente, é o que acontece.

Ainda que limite, bloqueie e impeça a livre e plena manifestação do enorme potencial humano que há em cada indivíduo, o dispositivo binário de gênero exerce um extraordinário fascínio sobre os seres humanos, por lhes oferecer a possibilidade de serem reconhecidos em determinadas "categorias" na sociedade, o que diminui muito a sua ansiedade no convívio diário com outras pessoas. O medo de ser ninguém supera muito o medo de ser alguém, mesmo que esse alguém não seja exatamente quem a pessoa acha que é. Exatamente por isso o sistema binário de gêneros continua tão vivo e ativo na sociedade.  


Longe de ser agente de mudança da masculinidade e feminilidade tradicionais que, aliás, há muito tempo já andam em frangalhos, a pessoa transgressora de gênero é tipicamente apenas mais um membro conservador da sociedade, agente defensora do patriarcado, buscando desesperadamente a sua inclusão na ordem vigente e evitando sistematicamente qualquer posicionamento crítico em relação à perversidade desse status quo.

Marbleous Mamalith - a face in transition, Rawfey L - 2011
Mesmo as raras pessoas transgêneras que se apresentam com um “verniz revolucionário” não conseguem disfarçar a representação idealizada de mulher e de homem que carregam dentro de si, por força da educação que receberam, como qualquer pessoa cisgênera que foi socializada nessa sociedade rigidamente binária em que vivemos.

Dessa forma, a existências de pessoas trans que, por si só, tem potencial para constituir um grande movimento transformador do dispositivo binário de gênero, acaba sendo quase uma espécie de "fetichismo de gênero", que apenas abona e reforça sistematicamente o discurso de um feminino lerdo e servil e de uma masculinidade opressiva e violenta.

A pessoa transgênera típica se vende barato demais na sarjeta do desejo, enquanto se gaba, dentre outras asneiras, de ser 100% mulher ou homem hétero, sem levar em conta de que, ao adotar esse discurso, apenas confirma a ordem que a rejeita e exclui, e que vai continuar rejeitando e excluindo a despeito de qualquer procedimento estético ou cirúrgico que a pessoa adote.

A pessoa transgênera típica se orienta não só por uma nítida tentativa de conservação dos padrões clássicos da masculinidade e da feminilidade, mas também do relacionamento homem-mulher, o que a transforma de potencial revolucionária com enorme poder de transformação na sociedade, em grotesco simulacro de mulher vulgar e servil ou de homem grosso e agressivo.

Contudo, não será por essa representação tola e alienada que o movimento transgênero deixará de ser inerentemente revolucionário, trazendo em si um gigantesco potencial de mudança sócio-política da sociedade, na medida em que afronta premissas básicas do sagrado dispositivo binário de gêneros – homem e mulher –, as duas categorias opostas e mutuamente exclusivas que fundamentam toda a imensa construção sociopolítica em que vivemos.

Evidentemente, a transgeneridade revolucionária de que estou falando é infinitamente mais do que esse mero “fetichismo de gênero”, essa atraente “diversão porno-erótica” que arrebata tantas seguidoras e seguidores dentro do gueto trans.

Diversão que pode custar – e custa – muito caro, em termos da perda drástica de oportunidades e das contínuas retaliações da sociedade, em função da decisão de “peitar” a ordem oficial de gênero.

Transgênero desse tipo é apenas um macho ou uma fêmea com uma psique ainda mais fragmentada do que uma pessoa cisgênera comum. Vive se jactando da sua “masculinidade” ou da sua “feminilidade”, afirmando que se apresenta socialmente como mulher ou homem porque “se sente” 100% mulher ou homem.

Com roupas, caras & bocas, voz disfarçada, trejeitos, cirurgias e atitudes, uma pessoa transgênera pode até pensar que incorporou e representa efetivamente a mulher ou o homem previstos no dispositivo binário de gênero quando, para essa mesma ordem, está apenas fazendo “papel de palhaço”, representando uma paródia ridícula que apenas faz despertar ainda mais a ira da sociedade contra a transgressão praticada por essas pessoas.

Transgender children
Para a sociedade, por não serem machos e fêmeas biológicos, essas pessoas apenas se “fantasiaram” de mulher ou de homem. E essa “fantasia”, em vez de promovê-las e dignificá-las, servem apenas para escracha-las e desmoraliza-las ainda mais como pessoas humanas.


A condição transgênera é uma oportunidade única de se detonar a camisa de força do dispositivo binário de gênero, checando todas as premissas e proibições que cercam a chamada masculinidade e feminilidade. É um mandato para se explorar os subterrâneos mais profundos do inconsciente individual e coletivo, onde a pessoa trans é compelida e obrigada a saber muito mais de si do que qualquer pessoa cis na sociedade.

Se conduzida dentro de uma postura crítica da sociedade, a transgeneridade pode se transformar numa jornada de descoberta de possibilidades existenciais jamais sequer imaginadas pelas pessoas comuns, cisgêneras, que vivem presas nas carapaças binárias de gênero.

A condição trans só é doença – e doença social grave – quando deixa de ser uma profunda e dolorida busca de identidade do “ser no mundo” para converter-se numa projeção barata e gratuita de personagens sociais idealizadas, estereótipos de gênero em que apenas se busca reificar e ratificar o “macho-heterossexual-cisgênero” e a “fêmea-heterossexual-cisgênera”, como persegue e sustenta a ladainha neurótica e absurda de discursos como o “nasci em corpo errado” ou “sou 100% homem ou 100%mulher”.

O foco nessa feminilidade ou masculinidade idealizada denota o descaso absoluto da população transgênera com o próprio material psíquico trazido à tona pelo desejo de transicionar. Será que não percebem, no apelo inexorável do desejo que leva um macho ou uma fêmea genética a transicionar para uma categoria de gênero onde o seu ingresso é terminantemente proibido, a existência, antes de mais nada, de uma parte do seu próprio ser que foi obrigada a ser abandonada, esquecida e recalcada, e que implora por um canal de expressão?

Essa parte precisa de ser empoderada, precisa se expor e até se impor, para encontrar o seu lugar no mundo. Em vez de socorrer essa parte, que grita pelo direito de ser e de expressar no mundo, o que a grande maioria das pessoas transgêneras faz é render-se à obsessão de “mudarem de caixinha” de gênero. Ou seja, de libertarem uma parte da psique mediante o esquecimento, a repressão e o abandono da outra.

Em vez de abrir canais de expressão consistentes “para a pessoa humana” que um é, bloqueia-se um canal para que o outro canal se expresse. A ideia geral é de continuar a ouvir a música existencial em “mono”, em vez de se abrir os dois canais e passar a ouvi-la em estéreo.

A vida da pessoa transgênera que está sendo forjada nessas condições é um pastiche, um pobre simulacro, de muito má qualidade e de péssimo mau-gosto (inclusive, e sobretudo, mau-gosto estético, pois como essa gente se veste mal!).

A revolução da transgeneridade ainda está para acontecer e nela, indubitavelmente, a ideia não é se fechar um canal para abrir o outro – e sempre em detrimento do outro. O caráter libertário da revolução transgênera está, exatamente, em cada pessoa poder ser o que ela é, e isso implica numa abertura ampla, geral e irrestrita de todos os canais de expressão do indivíduo, em vez da ideia restritiva de fechar um canal antes de abrir o outro, tão típica da ordem patriarcal-cisgênera.

A pessoa transgênera, quando está consciente do que se passa com ela mesma e com a sociedade em que vive representa efetivamente o fim do gênero como categoria de classificação, exclusão e hierarquização e a gênese de uma outro tipo de gênero, caracterizado pela ilimitada possibilidade de expressão de cada indivíduo no mundo, sem as camisas de força de uma feminilidade ou masculinidade-machista, hegemônica, opressiva e decadente, que ainda tenta sobreviver e se sobrepor ao inevitável curso de progresso da humanidade.

Heather Cassils: the transgender bodybuilder

Tal como o antigo gênero, esse também será uma forma de representação, expressão e reconhecimento dos seres humanos na sociedade, só que livre de amarras e impeditivos sexistas, que hoje impedem que um macho genético possa se expressar socialmente como mulher, por exemplo. Um sistema basicamente performático e teatral, com uma flexibilidade infinita, capaz de permitir que qualquer macho ou fêmea biológicos possa aventurar-se o quanto queira por domínios estéticos – e até fisiológicos e anatômicos, por que não? – até aqui reservados exclusivamente à mulher e ao homem “criados” e “disciplinados” pelo dispositivo binário de gênero.

Não se trata, portanto, de reafirmar a feminilidade ou a masculinidade de maneira tão tola, vulgar e ineficaz, como fazem tantas pessoas transgêneras por aí, guiadas pelo medo de não serem completamente reconhecidas e aceitas como 100% homem ou 100% mulher.

Não se trata, tampouco, de reafirmar, de modo ainda mais tolo e não-convincente, uma heterossexualidade desnecessária e “forçada”, como se o desejo sexual tivesse que viver permanentemente atrelado às “exigências contratuais” de uma masculinidade ou feminilidade absolutamente desacreditada no mundo de hoje.

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