segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Por uma coisinha tão boba...

As pessoas se acostumaram a levar desaforo pra casa, muito mais do que deviam, por se acharem totalmente impotentes para fazer o desaforado ao menos sentir vergonha das suas insolências. É bem verdade que, numa sociedade completamente “sem eira nem beira”, nem governo, os desaforados não se envergonham de mais nada. Pelo contrário, sentem cada vez mais orgulho em praticar seus desaforos.

Começa com o jovem bombado, de boné, óculos escuros e fones de ouvido que no horário de pico ostensivamente se assenta no lugar reservado a pessoas idosas, gestantes, obesas ou portadoras de deficiência física, fazendo de conta que não viu nada e que não sabe de nada.

- Psiu, oi, você... (O cara nem se mexe)
- Por acaso você está grávido? Porque você não é nem idoso, nem obeso, nem portador de deficiência física...

O “está grávido” parece ter atingido em cheio o machismo do boy fazendo com que ele subitamente despertasse do “sono profundo” em que se encontrava. Mas em vez de sair do lugar, como era sua obrigação, simplesmente ergueu o dedo médio, com todos os demais dedos da mão abaixados, fazendo aquele gesto de “vá se foder” e continuou completamente absorto na violação da lei, como se eu é que fosse a delinquente.

Começa com a moça bem produzida, com o seu boy a tiracolo, na fila de atendimento especial do supermercado lotado.

- Moça, essa fila é de atendimento especial. Veja a placa em cima do caixa.

A mulher fez de conta que não me viu e, principalmente, que não me ouviu. Aí eu falei de novo, num tom um pouco mais alto. Aí ela respondeu, com aquela cara-de-pau de cidadã pós-graduada em cinismo e cretinice:

- Ah, me desculpe, da próxima vez eu olho melhor as placas...

E ficou rindo na minha cara, junto com o mauricinho dela, enquanto se dirigia incólume para o caixa, que também não disse uma palavra em minha defesa. Também a moça do caixa já deve ter levado tanto desaforo nessa vida, sem poder fazer nada, que deve até ter achado que eu é que estava exagerando de reclamar por uma coisinha tão boba.

Esse é o bordão universal de todas as pessoas oprimidas e injustiçadas: para que reclamar por uma “coisinha” tão boba? Só que as “coisinhas bobas”, junto com os respectivos desaforos sofridos, vão se somando umas às outras, sucessivamente, até se agigantarem a tal ponto que a pessoa desiste inteiramente de fazer qualquer tipo de reivindicação. Não vale a pena brigar e se expor, podendo até levar um tiro. É assim que o medo da retaliação sobrepõe-se ao direito de exigir o que é de direito e as pessoas vão se acovardando a um grau que fica fácil serem dominadas por qualquer impostor-intimidador.

Pois que venha o tiro! E é preciso dizer que ele raramente vem, pois esses delinquentes desaforados sabem muito bem que estão errados e, a menos que sejam tipos totalmente descompensados (existem, sim) vão afinar bonitinho quando forem publicamente denunciados. 

É preciso brigar, sim, muito e sempre, pelos seus direitos mais elementares, por que, por mais óbvios que sejam, haverá sempre algum espertinho querendo obstrui-los, confiscá-los ou solenemente negá-los.

- Ei, rapaz, eu falei com você, e não será a sua falta de educação que vai me fazer desistir de ocupar o lugar a que tenho direito no transporte coletivo. Portanto, levante-se daí agora que eu quero e vou me assentar.

Pois não é que o sujeito levantou na hora e saiu de fininho, com o rabo entre as pernas, notoriamente puto da vida. E todas as pessoas que estavam à minha volta aplaudiram a minha iniciativa, me cumprimentando quando eu ocupei, vencedora, o assento reservado para pessoas da minha idade.

- Ei moça, eu não cedi a minha vez para você, não! E exijo que o supermercado cumpra a lei. Quero ver o gerente agora.
- A senhora está querendo fazer uma cena por aqui? Eu já estou na vez de ser atendida!
- Estou apenas exigindo os meus direitos, minha jovem. Espero que você sobreviva até a minha idade para fazer a mesma cobrança dos seus direitos. A vez é minha e eu não vou cedê-la para você.

A jovem calou a boca e o mauricinho dela fez de conta que nem era com eles. Recolheu os itens que já tinha colocado sobre a esteira do caixa e retirou-se da fila.

Ao passar triunfante pelo caixa, fui aplaudida pelas pessoas que estavam na fila, atrás de mim.

- Parabéns! A senhora é uma mulher de coragem.

É atrás da gente não gritar por "coisinhas bobas" que acabamos dominadas por essa corja de políticos e religiosos completamente sem escrúpulos que extraem o poder deles exatamente do fato de terem por certo que muito pouca gente vai berrar quando estiver sendo extorquida e tosquiada por suas malandragens.

4 comentários:

  1. Adorei! Temos que lutar sim e muito! Meus vizinhos acham um absurdo eu reclamar quando estacionam em frente ao meu portão ( é uma garagem, mas não tenho carro ). Questionam que não tenho carro. Foda-se. Se eu precisar de um táxi, carona ou que uma nave espacial pare na minha porta (que já é minuscula porque meu terreno é o menor da vizinhança), náo posso porque o carro de todos revezam o espaço. Falo com toda educação, mas tá dificil. Já avisei que se houver proxima, chamarei a polícia. Quem sabe assim, entendem que, independente, de ter um carro ou não, é uma GARAGEM e minha única entrada. Povo "Kaphonna"

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  2. Oi Ivana,
    Grata pelo seu comentário que me fez lembrar uma das minhas heroínas recentes do cinema, a Clara, do filme Aquarius, vivido na tela por Sônia Braga.

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  3. Excelente! Infelizmente vivenciamos isso em nosso dia a dia e o que mais dói é exatamente a sensação de estar só quando tentamos nos rebelar contra essas atitudes. Um dia estava numa lotação em Porto Alegre (transporte coletivo legalizado, é um micro ônibus com ar-condicionado), uma moça ouvia música no celular num volume muito alto, pedi que baixasse o volume (ela nem deveria estar ouvindo música, existe uma lei municipal que proibe). Ela "fingiu" que baixou o volume, eu pedi novamente que baixasse o volume ou colocasse fones de ouvido, ela retrucou e disse que se eu não quisesse ouvir música que andasse de táxi... Ninguém no ônibus me apoiou, nem mesmo o motorista, que viu o que estava acontecendo, pois estávamos sentados bem próximos a ele. A passividade das pessoas em relação a estas situações me espanta, mas isso não fará com que eu deixe de lutar pelos meus direitos!

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