sábado, 18 de fevereiro de 2017

Os impasses da "nova masculinidade"

O modelo masculino de força, inteligência e bravura, uma das grandes vacas sagradas da humanidade, foi literalmente para o brejo e está cada vez mais atolada. Embora não tenha desaparecido por completo - pelo contrário, até que sobrevive e continua tendo muito espaço nesse mundo já não goza do poder e do prestígio que fazia a cabeça das mulheres há apenas 50 anos.

De respeitáveis trabalhadores, xerifes, defensores da lei e da ordem, galãs e chefes-de-família de reputação ilibada, os homens passaram a ser vistos como reacionários, machistas arrogantes, pais inadequados e ausentes e amantes da pior qualidade. Na melhor das hipóteses, viraram anti-heróis ingênuos, bobos, fracassados e trapalhões como o Bart Simpson, nos desenhos animados, ou em permanente crise existencial, como os personagens dos filmes de Woody Allen.

Não há mais personagens masculinos de peso, exceto, talvez, o ogro Shrek: mal-educado, grosseiro, porco, politicamente alienado e antissocial. Dotado, ao mesmo tempo, de uma extraordinária sensibilidade recalcada que busca meios para se expressar, Shrek encarna os grandes conflitos do homem contemporâneo que emergiu das lutas de afirmação feminista do final do século XX.

Embora o sucesso do ogro Shrek, ele representa o fim decadente e nostálgico da era de príncipes encantados que até recentemente empunhavam reluzentes espadas e enfrentavam dragões e bruxas más para defender donzelas puras e imaculadas.

Mas nem nas páginas dos livros infantis esses príncipes existem mais. O próprio roteiro dos filmes do Shrek se encarregou de desfazer a magia desses personagens ao mostrar um “príncipe encantado” altamente narcisista, egoísta, covarde e sem escrúpulos.

Não é de hoje que uma crise sem precedentes vem rondando a masculinidade. Mas, em vez de mergulhar nela, o homem tem usado todo tipo de expediente para negar a sua existência e fugir dela. Em praticamente todos os filmes que concorrem ao Oscar de 2017, os personagens masculinos aparecem abertamente em crise ou cercados de grandes conflitos e incertezas existenciais (o compositor de “La la land”, o traficante em conflito com sua identidade sexual em “Moonlight”, o marido atormentado do filme iraniano “O apartamento”, o jovem que volta para a sua cidade natal em “Manchester a beira mar”).

Neste início de século XXI, a imagem pública do homem e da masculinidade é praticamente o oposto daquela de “impávido colosso” que dominou a paisagem sociopolítica do início do século XX. Agora, a maioria dos modelos masculinos disponíveis para o consumo da juventude ou são homens maus, corruptos, estúpidos, grosseiros, insensíveis, conservadores, aproveitadores e espertalhões, feito os indiciados da Operação Lavajato ou o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, ou são tolos, palermas fracassados e conformados com a trajetória de franca decadência.

Agora é a vez das mulheres - e é merecido que seja. Enquanto os homens dormem sobre “louros metafísicos”, defendendo princípios e valores completamente retrógrados e ultrapassados, as mulheres lutaram e lutam diariamente para obter e assegurar os direitos mais elementares que, por milênios, lhes foram acintosamente negados. A começar pelo direito à propriedade do próprio corpo e à livre escolha do próprio destino. Luxuosamente auxiliada pela tecnologia da pílula anticoncepcional, em menos de 50 anos a mulher avançou mais do que em quase 10 milênios de história, passando da condição de vítima da opressão e do sexismo masculino à condição de “arquiteta da sua própria história”.

As conquistas femininas são o fato mais notável do final do século XX. Para alguém, cujo status sociopolítico, no Brasil de 1924, equivalia ao de um animal de carga (a constituição brasileira daquele ano assegurava ao homem a propriedade da terra, dos animais e da mulher) é um feito absolutamente extraordinário uma mulher ter conseguido ocupar a presidência da República, menos de 100 anos depois. E tudo de maneira discreta, sem armas, sem guerras, sem confrontações inúteis, valendo-se tão somente da sua disciplina, competência, perseverança e foco nos resultados.

Nos últimos 50 anos, a mulher vem realizando a maior revolução de costumes já vista na história da humanidade. Uma revolução mais do que vitoriosa, que a coloca hoje em franca vantagem competitiva em relação ao homem.

As vantagens já começam a se esboçar na escola. Aos cinco anos, mais meninas que meninos conseguem escrever seu próprio nome. Aos vinte, mais mulheres do que homens ocupam as cadeiras das universidades como alunas. Aos quarenta, elas ocupam a maioria das cadeiras de pesquisadores e docentes nessas mesmas universidades.

As desvantagens, entretanto, por culpa do atraso do pensamento masculino, ainda são muito fortes, como a proibição do aborto ou a redução dos salários da mulher em funções exatamente iguais às do homem.

Mas enquanto os homens se agarram ao passado, tentando defender territórios onde jamais voltarão a ser senhores absolutos, as mulheres se lançam ao futuro decididas a ocupar todo e qualquer espaço antigamente exclusivo do homem, que ele simplesmente perdeu a exclusividade por preguiça, negligência, desinteresse ou clara incompetência.

É o caso da família. Com o “sumiço” de maridos para manter e conduzir a família, fenômeno que continua em franca ascensão no país, a mulher assumiu sozinha o posto abandonado em massa pelos homens, e o resultado disso é que já são integralmente responsáveis por quase 47% dos lares brasileiros.

Podemos afirmar, sem nenhuma sombra de dúvida, que o tamanho da crise existencial do homem contemporâneo só encontra paralelo no tamanho do fenômeno mundial da liberação da mulher, com a diferença que, ao contrário do sucesso cada vez maior da revolução feminina, o enredo masculino parece estar cada vez mais predestinado ao fracasso.

A revolução feminina abriu enormes fissuras na masculinidade, que o homem, em vez de encarar pra valer, tenta de toda forma negar e/ou desqualificar. Com a sensível elevação do status sociopolítico-econômico da mulher e a consequente modificação da divisão de papeis de gênero na sociedade, quase todas as antigas virtudes masculinas não apenas deixaram de ser necessárias como muitas se tornaram inteiramente indesejáveis.

Por milênios os homens cultivaram habilidades de guerreiros, operários e provedores. Como guerreiros, deviam combater ferozmente os inimigos, protegendo suas tribos com suas próprias vidas. Como provedores, deviam garantir o sustento da mulher e dos filhos, sacrificando seu tempo e dinheiro em nome do bem-estar das suas famílias, comunidades e nações. Como operários, encarregaram-se de construir e fabricar, literalmente, quase tudo que existe à nossa volta.

Pelo menos em grande parte do mundo ocidental, a força e a coragem para levar adiante essas tarefas tornaram-se completamente desnecessárias e supérfluas. Em lugar de “bravura indômita”, a sociedade agora espera que o homem seja uma criatura gentil e carinhosa. Em lugar de destruir impiedosamente seus inimigos, a ordem agora é dialogar com eles, de forma incansável. Em lugar de trabalhar de sol a sol, empregando a força bruta na lavoura ou na fábrica, agora a demanda é para pensar e criar soluções tecnológicas cada vez mais sofisticadas. Em vez de impor sua vontade de forma arrogante e unilateral, como sempre fez ao longo da história, o homem agora deve ouvir, transigir, negociar, compreender e aceitar, verbos que, até muito recentemente, nunca existiram no seu vocabulário.

Tendo sido doutrinado durante tanto tempo para seguir cegamente rígidas normas de conduta e para atuar em papéis e funções rigorosamente pré-definidos, é muito pouco provável que os homens consigam adaptar-se naturalmente a esses novos tempos. Eles, ou quase todos eles, simplesmente não sabem como agir da maneira que agora lhes está sendo cobrada. Simplesmente não tiveram treinamento para isso, demonstrando, ao mesmo tempo, grande rejeição e resistência em desenvolver essas novas habilidades, que consideram “coisa de viado”, com base no bitolante treinamento que receberam para se tornar homens.

Um outro grande complicador para o momento histórico que os homens estão vivendo é o fato que, quando as mulheres iniciaram a sua revolução, elas tinham muito a ganhar e praticamente nada a perder. Ao contrário, o homem sabe muito bem que tem tudo a perder e nada a ganhar, na medida em que a mulher avança nas suas conquistas.

Não é a toa que os setores mais radicalmente conservadores da sociedade, coincidentemente grandes e antigos redutos de preservação da “masculinidade”, falam hoje abertamente da existência de uma grande conspiração mundial, orquestrada pelas feministas com a colaboração das pessoas LGBT, cujo objetivo é destruir a família e solapar a imagem do homem-masculino-macho, abalando com isso, segundo eles, os próprios alicerces da sociedade humana...

A resistência do homem às mudanças que a sociedade está lhe impondo só não é maior do que a sua ignorância a respeito do tamanho e da profundidade da crise que está vivendo. Talvez numa tentativa desesperada de interromper a marcha irreversível da história, grande parte dos homens simplesmente se recusa aceitar a ideia de que a masculinidade esteja em crise. Para essa maioria de alienados, a nova dinâmica de organização social é apenas um simples “movimento de conjuntura”, algo parecido com o que sucede com as Bolsas de Valores, em função do “humor” do mercado. Para esse imenso contingente de homens, em breve as coisas voltarão plenamente ao “normal” (leia-se: o homem continuará mandando e as mulheres obedecendo suas ordens sem nenhum questionamento ou polêmica). Conquistas e avanços femininos, segundo eles, é conversa “pra boi dormir” de feministas "mal-amadas"...

Enquanto as coisas não voltam “ao normal”, o que, na concepção do homem, significaria recuperar todas as suas antigas vantagens e prerrogativas sociopolítico-culturais, algo simplesmente absurdo de acontecer nos dias atuais, os homens bebem como nunca, drogam-se como nunca, comem como nunca, violentam e matam como nunca e consomem mais esporte e pornografia do que nunca. Ao mesmo tempo, tentam passar uma imagem pública de que estão totalmente seguros de si, e que não há nada de errado com eles mas com a sociedade que, repentinamente, está deixando de lhes dar o “devido valor e reconhecimento”.

Um dos slogans preferidos de Donald Trump durante sua vitoriosa campanha à Casa Branca foi “Make America Great Again” (fazer a América grande de novo). Seu solene desprezo pelas mulheres nos autoriza a ler esse slogan de outra forma: fazer o homem americano importante de novo. Mas a se pensar no tamanho da Marcha das Mulheres, na capital americana e em diversas outras cidades do país, no dia seguinte à sua posse, é bem pouco provável que ele consiga o seu intento...

O relacionamento com a mulher é um capítulo à parte no contexto da crise atual da masculinidade. Podemos dizer que equivale à tortura psíquica de um ex-senhor tendo que conviver diariamente com um ex-escravo, subitamente galgado para o mesmo patamar de igualdade. Para muitos é insuportável ver sua antiga propriedade nivelada com o proprietário, negando ser sua propriedade e recusando-se em satisfazer suas vontades. O ódio contido desses “antigos proprietários”, agora reduzidos a meros “companheiros”, tem se revelado no aumento impressionante – e galopante - dos índices de violência contra a mulher, no mundo inteiro.

Para agravar o que já é complicado, é cada vez mais difícil conviver com a mulher liberta e esclarecida na sua intimidade. Apesar de pertencerem à mesma espécie humana, a desigualdade histórica entre essas duas categorias de gênero transformou o homem e a mulher em dois seres inteiramente diferenciados um do outro. Apesar dessa diferenciação histórica, inteiramente arbitrária, ter dado origem, ao longo do tempo, ao que se convencionou chamar de “guerra dos sexos”, as coisas ficaram infinitamente mais difíceis quando as diferenças, artificialmente criadas e mantidas por milênios, subitamente desapareceram de forma muito concreta e real.

Os homens nunca foram treinados para viver na companhia da mulher, mas na companhia de outros homens, coisa que podem desfrutar cada vez menos nos dias atuais. Com o mix de gêneros atualmente presentes nos locais de trabalho (até mesmo nos quartéis, antigos “templos” de convivência masculina), resta aos homens encontrar com os amigos nos bares da vida. Para beber e contar “feitos gloriosos” uns aos outros, já que homem não tem nem medo nem mágoa para contar. Na opinião deles, esses são sabidamente sentimentos “de mulher”...

Mergulhados nesse mar de dúvidas e incertezas, até o mantra "viva e seja feliz”, que sustenta a nossa cultura consumista, parece não funcionar mais para os homens. O modelo de masculinidade em que a maioria dos homens continua firmemente ancorada nunca os autorizou a “viver e ser feliz”. Vida de homem é baseada no sacrifício, na renúncia e na sublimação do desejo. É baseada na negação do prazer que, por isso mesmo, torna-se objeto de satisfação pornográfica às escondidas, longe dos olhares inquisidores da sociedade, como se isso fosse possível no mundo virtual, onde todo mundo é monitorado o tempo todo e seus passos registrados.

Proibidos de “viver hoje e ser feliz”, os homens aprenderam a ter sempre um pé no ontem e o outro no amanhã. Vivem presos a crenças, normas e valores do passado, ao mesmo tempo que perseguem obstinadamente metas, planos, causas, projetos e empreendimentos no futuro.

Apesar de viverem a maior crise existencial da história, em que não conseguem nem ao menos saber qual é o seu papel na sociedade, continuam apavorados com a ideia de não serem suficientemente homens (afff!), assustando-se com coisas banais como orientação sexual fora da heteronormatividade. E de besteira em besteira como essa, continuam se recusando a discutir as mudanças que precisam fazer para viver nessa nova sociedade de "pessoas iguais", sem a hierarquia do pinto sobre a vagina.

Não há soluções nem simples nem fáceis nem de curto-prazo para tantos impasses – e olha que só mencionamos alguns poucos. O homem não pode voltar o relógio do tempo e simplesmente ocupar de novo o trono em que esteve por milênios onde, aliás, a maioria deles ainda pensa estar.

E embora “novos ditadores” inventem diariamente novos inimigos para ser derrotados pela “horda de homens”, a verdade é que já não há mais uma grande causa comum capaz de catalisar os antigos valores masculinos de natureza bélica. O nazi-fascismo, nas décadas de 1930 e 40 do século passado, talvez tenha sido a última grande causa desse tipo.

Por outro lado, o homem não pode mais nem ao menos dedicar-se exaustivamente ao trabalho, a fim de manter sua família fora da miséria. Em parte, porque a maioria deles já não está mais nessa de “família”; em parte, porque a mulher já faz isso, junto com ele e também sem ele; e em parte, porque já não existem mais os empregos de antigamente, sempre à espera de serem preenchidos por homens.

A sociedade continua cobrando do homem, e cada vez de maneira mais ostensiva, a adoção de uma “nova masculinidade”. Contudo, ao mesmo tempo, continua “premiando” desempenhos baseados na “masculinidade patriarcal-machista-bélica”, punindo (ou ignorando, na melhor das hipóteses) os homens que se comportam com base nos novos padrões de conduta propostos pelas campanhas de “modernização do homem".

Essas distorções revelam a existência de um fosso muito profundo entre o discurso e a prática. O discurso fala de situações desejadas, enquanto a prática permanece rigorosamente atrelada a velhos procedimentos e condutas masculinas "clássicas", para não dizer completamente retrógradas e ultrapassadas, ignorando completamente o discurso de mudança.

Embora, no discurso, o homem patriarcal-bélico-machista seja objeto de sérias restrições da sociedade, na prática suas ações continuam sendo não apenas politicamente aprovadas como socialmente reconhecidas e até enaltecidas e recompensadas. Na prática, o homem bélico continua sendo muito superior ao homem lúdico que, por sua vez, ainda é considerado simplesmente fraco e covarde pela maioria dos homens.

Por outro lado, não se constata nenhum movimento educacional no sentido de se produzir um tipo diferente de homem. Por sinal, nossa educação está cada vez mais distante de criar o "homem lúdico", cuja masculinidade seja baseada na cultura da paz, em lugar do "homem bélico", cuja masculinidade é totalmente fundada na cultura da guerra.

A verdade é que o "homem lúdico" é visto como um afeminado. Assim, temerosos que seus filhos se tornem “gays”, os meninos continuam sendo educados pela família de acordo com padrões tradicionais da masculinidade, padrões esses altamente bélicos, machistas, misóginos, lgbtfóbicos. E é curioso notar, entre destacados defensores dessa "ideologia de manutenção da masculinidade", mães, pais e educadores cujo discurso tem sido exatamente a defesa do surgimento de uma "nova masculinidade"...



Um comentário:

  1. Sensacional seu texto, Letícia! Me levou a muitas reflexões. Muito obrigado por compartilhá-lo conosco.

    Jonas V.

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