quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

VOCÊ É QUEM VOCÊ ACHA QUE É - Lidando com crises de baixa auto-estima na vida das pessoas transgêneras

Crises de baixa auto-estima são uma constante na vida de qualquer pessoa. Porém, no caso de pessoas transgêneras, essas crises costumam ser ainda mais frequentes e intensas do que na média da população. Pessoas trans são, na sua maioria, criaturas invariavelmente muitíssimo passionais. Mulheres (e homens) permanentemente à beira de um ataque de nervos, no melhor estilo Almodóvar.

Uma simples "mirada no espelho" (pés de galinha, nariz grande, pomo de Adão pronunciado, lábios estreitos...) como qualquer observação "meio atravessada" de alguém (você está mais gordo, mais magro, mais velho, mais careca...) pode fazer com que uma pessoa trans se atire, de uma hora para outra, no mais fundo do poço, morrendo de pena de si mesma, e desejando que o chão se abra para levá-la de vez desse mundo que não a compreende e muito menos aceita.

É claro que, além desses dramalhões mexicanos, cheios de performances histriônicas e despropositadas de autopiedade neurótica, existem muitas outras formas possíveis de se lidar com uma crise de auto-estima.

Dê uma olhada nas sugestões abaixo, selecionando aquelas que sejam relevantes para a seus próprios conflitos de baixa autoestima, em função da sua condição de pessoa transgênera. Medite sobre elas e aplique-as ao seu dia a dia. Mas seja paciente com você mesma pois mudanças de comportamento sempre necessitam de algum tempo para se sobrepor aos seus velhos padrões de resposta para crises existenciais.

1. PARA VIVER SUA VIDA, VOCÊ NÃO PRECISA DA LICENÇA DE MAIS NINGUÉM, ALÉM DA SUA PRÓPRIA PERMISSÃO. PORTANTO, LIVRE-SE DOS “TENHO QUE” E DOS “DEVO ISSO" e "DEVO AQUILO”.

Concentre-se na busca de satisfazer suas próprias necessidades (ninguém vai fazer isso por você ou no seu lugar), em vez de se deixar bloquear por aquilo que os outros acham que você “deveria” ou não fazer. Esses “tenho que” afastam você dos seus verdadeiros desejos, interesses e objetivos pessoais. Descubra, então, o que você realmente quer fazer da sua vida, reúna seus talentos, conhecimentos e habilidades e vá à luta.

2. RESPEITE OS SEUS SENTIMENTOS

É muito duro sentir uma coisa e mostrar outra, apenas para agradar os outros. Com certeza, você jamais conseguirá agradar todo mundo. Portanto, vale a pena, pelo menos, tentar agradar a você mesma, em primeiríssimo lugar. Só agradando a você mesma, você terá alguma chance de conseguir agradar a mais alguém. Do contrário, se você se bloquear sempre - em nome de agradar os outros - vai acabar paradoxalmente "explodindo" exatamente com as pessoas que você tanto desejava agradar...

3. DÊ ASAS O QUANTO QUISER À SUA IMAGINAÇÃO, MAS LEMBRE-SE DE ESTABELECER OBJETIVOS REALISTAS QUANDO FOR TRANSPOR SUAS FANTASIAS PARA A REALIDADE.

Procure fixar seus alvos mais imediatos em cima de coisas que realisticamente você sabe que pode atingir. Liberte-se do perfeccionismo e concentre-se em suas reais possibilidades. Fixar metas como “ser a mulher trans (ou o homem trans) mais bonita, atraente e charmosa do universo” é a mesma coisa que convidar o estresse e o fracasso para serem sua companhia permanente.

4. PROCURE VER-SE COMO PESSOA TRANSGÊNERA SEMPRE PELO LADO MAIS FAVORÁVEL E DA MANEIRA MAIS POSITIVA POSSÍVEL.

Pare de dar ouvidos ao cruel e terrível "eu crítico" que existe dentro de você e que não pára de lhe dizer o que está errado, o que não está bom, o que está ruim e inadequado em seu comportamento e/ou aspecto geral. Quando notar que você está se julgando, se criticando e duvidando da sua própria sanidade em função de ser uma pessoa trans, reponha imediatamente tais ideias com pensamentos de auto-aceitação, auto-suporte e auto-motivação. A transgeneridade pode ser uma bênção ou uma desgraça em sua vida, e isso vai depender da maneira que você se concebe como pessoa trans e passa isso para as outras pessoas.

5. FAÇA TESTES DE REALIDADE. 

Uma das coisas que mais causam angústia existencial em uma pessoa trans é ficar imaginando como as coisas serão SEM DAR UM PASSO PARA QUE ELAS PELO MENOS SEJAM. Separe suas reações emocionais – seus temores e “maus pensamentos”, enfim o conteúdo fantasmagórico da sua mente, da verdadeira realidade que você está vivendo. Por exemplo, você pode sentir desamparo e desespero relativamente a um projeto que ainda não conseguiu realizar mas, se examinar com clareza, verá que a situação sempre comporta você fazer alguma coisa a partir dos recursos que você tem.

6. CRIE PEQUENAS, MAS CONSISTENTES, OPORTUNIDADES DE SUCESSO. 

Procure construir situações nas quais sejam absolutamente altas as suas chances de sucesso. Identifique projetos em que você possa explorar ao máximo suas habilidades e talentos, sem estressar-se em demasia. Imagine-se sendo bem sucedido. Seja lá o que for que você alcance, por mais simples que seja o seu resultados, comemore seu êxito e sinta o fortalecimento que uma pequena vitória lhe traz para novos e mais ousados empreendimentos no seu crossdressing.

7. CORRA RISCOS CALCULADOS.  
Sem experimentação não há aprendizagem e é correndo riscos que a gente desenvolve a nossa auto-confiança como pessoas trans gêneras. Cometer erros faz parte de qualquer processo de crescimento; não se desaponte se você não conseguir fazer uma montagem perfeita logo da primeira vez. Sinta-se bem em tentar outras vezes, realizando progressos e melhorando a sua competência a cada nova oportunidade.

8. ENCARE SUAS LIMITAÇÕES COMO O PONTO DE PARTIDA PARA TODAS AS SUAS CONQUISTAS - E NÃO COMO IMPEDIMENTO DEFINITIVO PARA QUALQUER COISA QUE VOCÊ QUEIRA FAZER. 

Muitas pessoas trans olham para suas limitações pessoais para expressar os estereótipos da feminilidade/masculinidade e se sentem combalidas e humilhadas, pensando que jamais conseguirão encarnar na pele a mulher ou homem que têm dentro de si. A questão é que, em vez de se envergonhar ou se deprimir diante das limitações é sempre possível transformá-las em oportunidades de crescimento. Assim, em vez de tentar “fugir” de tais limitações, negando-as ou ignorando a sua existência, devemos encará-las de frente, empenhando-nos em fazer com que elas trabalhem ao nosso favor, buscando caminhos e alternativas exatamente a partir delas e não contra elas. Correr das limitações que a gente possui é sempre a maneira mais fácil de minar ainda mais a nossa auto-confiança, uma vez que as limitações jamais " correrão de nós" por elas mesmas. Em resumo, aceite e sinta-se confortável dentro das suas atuais limitações mas, ao mesmo tempo, considere-as como ponto de partida para novas descobertas e aperfeiçoamentos pessoais.

9. FAÇA ESCOLHAS E TOME DECISÕES. 

Toda e qualquer situação que vivemos na vida TEM SEMPRE, NO MÍNIMO, DUAS ALTERNATIVAS: - fazer alguma coisa ou não fazer nada, ficar ou partir, continuar ou parar, etc, etc. A questão é que muitas pessoas trans dizem QUE NÃO TÊM OUTRA ALTERNATIVA quando, na verdade, elas estão é SE RECUSANDO A ESCOLHER CONSCIENTEMENTE ENTRE AS ALTERNATIVAS EXISTENTES, todas, muitas vezes, totalmente desagradáveis. Na medida em que a gente NÃO ESCOLHE CONSCIENTEMENTE, fica em nós a impressão de que ou fomos impedidos de escolher ou realmente não tínhamos outra alternativa - o que não é verdade. O “NÃO FAZER”, escolhido de forma consciente, tem o mesmo valor, em termos de escolha, do que o próprio FAZER!!! E, mais importante de tudo, quando sou EU que escolhi NÃO FAZER - e não aquela lorota toda de que o mundo me impede e os outros me perseguem - a minha autoestima não fica nem um pouco abalada. Pelo contrário, eu me sinto empoderada ao constatar que fui eu que decedi não fazer e não o mundo que me obrigou a não fazer. Pratique tomar e implementar decisões, de modo firme e flexível, e a lidar com as consequências e repercussões das escolhas que fizer. Você se torna uma pessoa verdadeiramente comprometida com a vida quando decide o que quer fazer e decide as ações que deve - ou não - realizar para realizar o seu desejo.

10. DESENVOLVA SEUS TALENTOS E HABILIDADES. 

Todos nós temos um dom especial, algo que nos destaca e nos diferencia das demais pessoas. Descubra qual é o seu e apóie-se nesse ponto para obter a energia que precisa para lidar com as competências que lhe falta desenvolver, sabendo que tudo pode ser aprendido e que, depois de um certo tempo, tudo deixa de ser um “bicho de sete cabeças” para ser um inofensivo gatinho doméstico. Focalize mais no que você pode fazer – e pelo amor da Deusa, faça! – em que de ficar se queixando daquilo que lhe falta ou que você não pode fazer nesse momento.

11. CONFIE NA SUA PRÓPRIA OPINIÃO A RESPEITO DE SI MESMA.

O feedback das outras pessoas é sempre muito importante e deve ser sempre bem recebido e respeitado. Mas reserve-se o direito de preparar o seu próprio "relatório final" a respeito do seu desempenho em qualquer situação que a vida lhe ofereça. Acredite nos seus próprios valores ao decidir como você deve se posicionar nesta ou naquela situação e o que é certo para você fazer ou deixar de fazer. Não deixe que as opiniões dos outros se sobreponham às suas próprias crenças e opiniões, por mais abalizadas que esses "outros" lhe pareçam ser. Talvez seja útil mirar-se, por um tempo, no exemplo e/ou nas opiniões dessa ou daquela pessoa. Contudo, em nenhuma oportunidade, TENTE IMITAR ou SEGUIR CEGAMENTE o modelo de vida de alguém. O que deu certo para ela pode ser exatamente a sua fonte de desgraça - e vice versa!!! Portanto, acima de tudo, lembre-se sempre de seguir o seu próprio nariz, pois galinha que segue pato, morre afogada.

12. REAJA COM TODAS AS SUAS FORÇAS AO SENTIR "PENA" DE SI MESMA E NÃO PERMITA QUE NINGUÉM FAÇA VOCÊ SE SENTIR PARA BAIXO, POR SER A PESSOA QUE É.  

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