sexta-feira, 30 de junho de 2017

Meu filho quer ir de vestido na festa junina, doutora. É grave?

- Meu filho quer ir de vestido na festa junina, doutora. É grave?
- O que a senhora acha que é grave?
- Grave ele estar pensando nessas coisas com apenas sete anos...
- Que coisas, minha senhora?
- Ora, em sexo! O que mais poderia ser?
- Muitas outras coisas, minha senhora. Para lhe dizer a verdade, sexo deve ser a coisa na qual ele menos está pensando quando lhe pede para ir de vestido na festa junina da escola.
- Como não, doutora? Ele está querendo ser mulher! Ele pode estar querendo conquistar os outros garotos, dançar com eles, entende?
- De onde foi que a senhora tirou essas ideias, minha senhora?
- Não fui eu que tirei, doutora. Elas estão aí. É assim que funciona. É assim que uma criança começa a ser "gay". Ah, meu Deus! A coisa que eu menos queria nesse mundo era ter um filho gay e ainda por cima travesti.
- Acalme-se. Não é nada disso. A senhora está fazendo tempestade em copo d’água.
- Onde foi que eu errei na educação desse menino? Onde foi, doutora?
- Olha, dá para a senhora me ouvir um minuto por favor: não tem nada de errado na sua história. Nada, compreende? Não há problema nenhum seu filho querer ir de vestido na festa junina da escola. Isso não significa que ele seja gay, que esteja interessado nos outros garotos e muito menos que a senhora tenha errado na sua educação, entende? A senhora me entende?
- Como assim, doutora? É lógico que se ele está querendo se vestir de mulher é porque está interessado em meninos e não em meninas...
- Nada disso, minha senhora. Há mulheres genéticas, que nasceram fêmeas mesmo, e não são poucas, que se vestem como mulheres, se comportam como mulheres e não têm nenhum interesse sexual por homens. A roupa que uma pessoa veste não determina de maneira alguma a sua orientação sexual. Ou seja, a menos que a relação sexual se destine à reprodução, a atração erótica entre pessoas não tem nada a ver com o fato delas serem homens ou mulheres. Aliás, essa é uma característica fundamental da nossa espécie, em que o sexo não é um mero instrumento ocasional de reprodução, mas uma fonte permanente e inesgotável de prazer.
- Então quer dizer que o meu filho não é gay? Ai, que alívio, doutora.
- Não é isso que eu falei, minha senhora. Eu só disse que não há nenhuma relação direta e absoluta entre a roupa que uma pessoa quer vestir e a atração sexual que ela sente por meninos ou por meninas ou ainda por meninos e por meninas ou nem por meninos nem por meninas, como também acontece com muita gente. A sexualidade da pessoa é uma questão de foro íntimo da própria pessoa e não pode nem deve estar acoplada, de modo radical e inexorável, nem ao órgão reprodutor que a pessoa carrega entre as pernas nem às roupas, comportamentos e/ou atitudes que a pessoa demonstra no seu dia-a-dia.
- Mas eu sou mulher, me visto de mulher e tenho atração por homens, doutora!
- Sim! E como você muitas e muitas outras pessoas também! Não há problema nenhum nisso, como não há nenhum problema em ser tudo ao contrário, entende?
- Entendo, mas confesso que tenho bastante dificuldade de entender, doutora.
- A sua dificuldade não é racional. Acho que ficou bem claro para a senhora de que o seu filho não é viado só porque deseja ir de vestido na festa junina. Sua dificuldade de entender é de ordem moral. A senhora sempre deve ter ouvido que homem se vestir de mulher ou homem ter desejo por outro homem é uma coisa feia, indecente e pecaminosa. Mas eu lhe pergunto: que problema existe em um menino se vestir com roupas de menina ou vice versa? Aliás, para que essa divisão tão rígida entre meninos e meninas, em casa e na escola, se, no mundo real, na sociedade contemporânea, tanto meninos quanto meninas são cobrados dos mesmos desempenhos e dos mesmos resultados? Talvez há cem ou duzentos anos as coisas estivessem tão rigidamente distribuídas na sociedade que fosse necessário essa divisão rígida entre “meninos” e “meninas”. Mas hoje não é mais assim.
- Então a senhora acha que eu devo deixar que ele vá de vestido na festa junina da escola? A senhora sabe que ele vai virar objeto de chacota dos colegas e que todo mundo vai achar que ele é viado...
- E qual o problema em ele ser viado? Em que isso vai modificar a sua capacidade de ser e de desempenhar papeis na sociedade? Viados são capazes de fazer as coisas tão bem quanto não-viados, assim como tanto viados quanto não-viados são capazes de ser cafajestes como grande parte dos nossos políticos...
- ...
- Além do mais não é a senhora que devia decidir quanto ao fato do seu filho ir ou não de vestido à festa junina da escola. Essa é uma decisão que compete exclusivamente a ele. Sua tarefa como mãe devia ser informar a ele que muitas pessoas poderão não aceitar que ele manifeste esse desejo, e até molestá-lo, através de palavras, risinhos, olhares de reprovação. Mas que em hipótese nenhuma você irá abandoná-lo ou deixar de apoiar as suas decisões porque você, como mãe, confia nela e o ama.

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