domingo, 18 de setembro de 2016

Mundo transgênero: tudo que é sólido se desmancha no ar

The Rock Horror Picture Show: Tim Burton, 1975; Laverne Cox, 2016
Dividir as pessoas transgêneras em “ene” identidades de gênero, sem nenhuma consistência semântica, é a pior estratégia possível na luta pelo resgate dos direitos dessa população.

Independentemente do rótulo identitário que as pessoas transgêneras resolvam assumir, para o público em geral elas não passam de gays e lésbicas “mais ousadas e afetadas”. Aliás, esses rótulos quase sempre são criados e mantidos pelas pessoas muito mais para satisfazer seus egos inflados do que para manifestar suas identidades sociais gênero-divergentes.

Há muito tempo não faz mais nenhum sentido essas velhas e desgastadas diferenciações entre travesti, transexual, crossdresser, dragqueen e transformista, dentre outras identidades alojadas debaixo do guarda-chuva transgênero. Os critérios diferenciadores, que já não diziam muita coisa no passado, hoje estão completamente defasados. Travesti não é mais alguém que se veste com roupas do gênero oposto e que não tem nenhum desejo de se operar, assim como transexual não é mais a pessoa para quem a cirurgia de reaparelhamento genital é questão de vida ou morte. Dragqueen e transformista, por seu turno, não é o gay que se monta exclusivamente para fazer shows em casas noturnas, como crossdresser não é o heterossexual que se monta com requintes de perfeição apenas como “passatempo”, “pelo prazer de se sentir mulher”.

Contrariando as esdrúxulas definições identitárias ainda em uso entre nós, há travestis que querem e necessitam se operar, assim como há transexuais que não pensam em fazer nenhum tipo de modificação corporal. Há dragqueens que se operam e crossdressers que transformam o seu “passatempo” em atividade diária, sete dias por semana, 365 dias por ano.

Apesar da insustentabilidade conceitual dessas identidades, exaustivamente desconstruídas no meu livro “O Corpo da Roupa”, as pessoas parecem se deleitar em manter acesas as cinzas dessa visão identitária radical, completamente moribunda e sem significado no mundo contemporâneo.

Por outro lado, enquanto as velhas identidades agonizam com o completo esvaziamento dos seus antigos significados, a todo momento assistimos o surgimento de novas nomenclaturas identitárias, que já nascem moribundas, sem nenhuma consistência semântica ou sociobiológica. É o caso das categorias identitárias dos chamados “não-binários” e dos “queers”, a primeira se definindo pela rejeição integral de qualquer vínculo com o binário oficial homem-mulher e a segunda tentando transformar em identidade uma palavra que ficou popularizada pela teoria Queer, exatamente um enfoque teórico que se caracteriza por negar e combater todo e qualquer tipo de identidade.

Contudo, sempre que eu tento checar, desmistificar e desconstruir conceitos identitários totalmente inconsistentes (além, é claro, de socialmente mais-do-que-degradados) escuto a velha ladainha de quem não quer mudar, de quem prefere perder a guerra do que mudar a estratégia de luta:
- Não podemos abrir mão dessa nomenclatura. Essas identidades ainda são muito importantes e necessárias para a instalação e a manutenção de políticas públicas “diferenciadas”...

Não vale nem a pena discutir o primarismo e a “inocência política” de tal abordagem. Basta dizer que, apesar dela estar “no ar” há muitas décadas, tudo que se conseguiu até hoje, em termos de avanço de direitos para a população transgênera, foi um miserável e ridículo “nome social” que, a rigor, não serve para nada, e uma fila para cirurgia de reaparelhamento genital no sistema público de saúde, em que muitas pessoas estão há mais de uma década.

Tudo que é sólido se desmancha no ar. A frase lapidar de Marx traduz com precisão o mundo transgênero contemporâneo, especialmente no Brasil, onde a mistificação e o atraso conceitual sempre encontram terreno fértil para prosperar, em meio à desinformação e alienação geral.

A luta pelos direitos civis das pessoas trans no Brasil depende da superação dessa fase pueril-adolescente, de defesa intransigente de siglas identitárias que nada significam, que só servem para confirmar aspectos “nada-a-ver” da condição transgênera, como modificação corporal e sexualidade, coisas de caráter inteiramente particular de cada pessoa, que jamais deveriam ser tomadas como elementos centrais da vida de uma pessoa trans, como são atualmente consideradas.

A única coisa comum que existe dentro da multiplicidade de identidades gênero-divergentes é a transgressão das normas de conduta de gênero. Se é que se pode “graduar” transgressão, é ela, em maior ou menor grau - e nenhuma outra coisa - que condena a pessoa transgênera a ser alguém “fora-da-norma” e, portanto, anormal, sujeitando-a às terríveis penas de que ela vítima no dia-a-dia: repúdio, estigma, discriminação, violência e exclusão, dentre outras “maldades” socialmente reservadas para pessoas infratoras de dispositivos sociais de controle, como é o caso do gênero.

A única luta que faz realmente sentido, que pode produzir avanços significativos no resgate dos direitos civis das pessoas transgêneras é a luta pelo fim da classificação das pessoas em função do seu órgão genital.

É esse processo de diferenciação e hierarquização social que transforma automaticamente em pessoas “não-conformes” todas aquelas que desobedecem a regra básica de enquadramento do dispositivo binário de gênero.

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